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China controla "torpedos"
Vivaldo José Breternitz

Em artigo anterior, dissemos que o governo chinês vem tentando controlar o
uso da Internet por seus cidadãos. Para isso, lê e-mails, espiona chatrooms,
bloqueia o acesso a determinados sites, etc.

Esses esforços prosseguem, agora envolvendo as mensagens SMS (Short
Message Service), aquelas recebidas por telefones celulares sob a forma de
textos curtos, comumente chamadas "torpedos".

Segundo o governo daquele país, o objetivo é nobre: evitar que circulem
pornografia e mentiras envolvendo temas relativos à política e à economia.
Na prática, fica claro que o objetivo é outro: identificar e controlar
dissidentes políticos.

SMS é uma tecnologia relativamente nova, mas uma empresa chinesa já está
vendendo sistemas que checam o conteúdo das mensagens. A idéia básica é usar
algoritmos que analisam os textos, buscando palavras-chave ou combinações de
palavras que possam ser associadas aos temas que interessam ao governo; o
sistema automaticamente registra as mensagens e alerta a polícia. Note-se
que esses algoritmos foram desenvolvidos por uma entidade ligada àquele
governo, a Academia Chinesa de Ciências.

Fontes governamentais disseram que esperam que os provedores de acesso à
Internet e de serviços telefônicos cooperem na vigilância, o que em um país
não democrático significa uma ordem nesse sentido.

De qualquer forma, com cooperação ou não, é uma tarefa árdua: há mais de
300 milhões de usuários de celulares, número que continua crescendo
aceleradamente; esses usuários enviaram 220 bilhões de mensagens em 2003.
Isso significa cerca de 7 mil mensagens por segundo, mais do que todo o
restante do mundo.

Como dissemos, SMS é uma tecnologia relativamente nova, mas já vem
mostrando seu poder: No final de junho, cerca de 2.500 pessoas, convocadas
por "torpedos", reuniram-se em Lisboa numa manifestação contra um provável
novo primeiro-ministro. Uma curiosidade: nossos irmãos portugueses chamam
seus celulares de "telemóveis". Consta também que o governo chinês ficou
extremamente preocupado quando notícias sobre a recente epidemia de gripe,
cuja existência negava, foram difundidas pela Internet e pelos serviços SMS.

À medida que iniciativas como essa proliferarem, é possível que os
governos não democráticos venham a tomar medidas ainda mais duras contra a
liberdade de comunicação. Como cidadãos, cabe-nos atuar da forma que
recomendavam os políticos da velha UDN: "o preço da liberdade é a eterna
vigilância"...

Data de Publicação: 16/09/2004


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