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Superstições
Vivaldo José Breternitz
A origem das superstições talvez esteja na impossibilidade de explicarmos racionalmente alguns fenômenos; seria natural então atribuir a determinadas atitudes ou objetos um poder "mágico" que forneceria essas explicações e permitiria àqueles que tomassem essas atitudes ou possuíssem esses objetos evitar o mal e atrair a "boa sorte". A Psicologia estuda o assunto de maneira mais ampla, o que não é nosso objetivo.
Nessa linha, seria de se esperar que à medida que a ciência avançasse, a superstição iria se extinguindo. No entanto não é isso que vem ocorrendo em muitas regiões desenvolvidas: nos Estados Unidos muitos edifícios não têm o 13º andar, acredita-se que bater na madeira livra de malefícios (provavelmente porque parte dos índios americanos veneravam o carvalho, o qual teria um suposto vínculo com os deuses); em alguns países da Europa, os gatos pretos são cuidadosamente evitados (eram considerados na Idade Média uma reencarnação do Diabo); o trevo de quatro folhas já era considerado como um amuleto pelos druidas das Ilhas Britânicas há mais de dois mil anos - acreditavam que com ele podiam ver os demônios. Segundo a lenda, quando Eva foi expulsa do Paraíso, levou um trevo de quatro folhas; por isso acredita-se desde então que essa planta traga sorte. De qualquer forma, essas antigas práticas sobrevivem a despeito do avanço tecnológico.
Mas o que está se vendo agora é a associação da superstição à alta tecnologia: da China, país onde a superstição é amplamente disseminada (talvez pelo fato de grande parte da população viver em áreas rurais, ou, vivendo nas cidades não poder ser considerada razoavelmente educada), vem agora uma novidade: a disputa pelos números de telefones celulares, baseada na crença que determinados números podem trazer sorte, enquanto outros trariam azar.
Na China, geralmente os números de telefone são vinculados a um cartão como os nossos PCMCIA (cujo exemplo mais comum são aqueles que atuam como modem nos notebooks) - esse cartão, inserido num telefone é o que determina seu número, podendo ser transferido para outro telefone se o usuário assim o desejar; nas lojas chinesas, cartazes anunciam a disponibilidade de "números da sorte", em especial aqueles que contem os algarismos 6, 8 e 9; o 6 é popular porque em alguns dos dialetos chineses pode significar "longevidade" ou "sorte"; o 8, que é pronunciado "ba" no dialeto Mandarim, é considerado bom porque rima com "fa" (prosperidade), e o 9, no mesmo dialeto é pronunciado "jiu" (durará muito). Em Shangai, acredita-se que o 8 é o melhor; números terminados numa seqüência de quatro ou cinco 8 são um sinal de status; 6 e 9 são bons, mas sozinhos não tem maior significado - o usuário precisa pelo menos ter dois desses números em seqüência.
Certas seqüências são altamente valorizadas, pois podem soar como certas frases auspiciosas nos diferentes dialetos: em Mandarim, 518 pode ser entendido com "eu quero progredir"; 168, soa como "a estrada para a prosperidade", enquanto no dialeto Cantonês, 289 soa como "prosperidade fácil e por muito tempo"
As companhias telefônicas estão administrando a concessão desses números, em alguns casos para fins nobres: num leilão de caridade, um dos números foi adquirido por cerca de US$ 40 mil. No entanto, os números mais comuns são adquiridos no atacado por pequenos revendedores, custando a partir de US$ 30, mas podendo triplicar ou quadruplicar na medida em que os números "melhoram".
Há também números "ruins": o 4 é pronunciado como "si", ou "morte" em Mandarim; em Cantonês, 14 soa como "morte imediata" e 53 "má saúde", o que faz com que esses números sejam vendidos a preços muito baixos, até gerando prejuízos para os comerciantes.
Num mercado de 65 milhões de celulares, essas crendices podem gerar um volume significativo de negócios; além dos supersticiosos, aqueles que buscam status também optam por "bons" números, acreditando que as pessoas de seu relacionamento, ao saberem que investiram nesses números, irão acreditar que são empresários ou profissionais de sucesso.
Para concluir, uma dúvida: o que há de verdade nisso tudo? Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay: acredita-se que um avião que acabava de decolar do aeroporto de Zurique há cerca de um ano, caiu por terem seus sistemas de controle sido afetados pelo uso de um celular. Só não se sabe qual era o número desse celular...
Data de Publicação: 02/02/2001
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