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A primeira vítima
Vivaldo José Breternitz

Em seu livro "A primeira vítima", Phillip Knightley mostra como os governos sempre ocultaram ou manipularam fatos ocorridos durante guerras, de forma a melhor atender aos seus próprios (e nem sempre legítimos) interesses. Segundo Knightley, isso faz da verdade a primeira vítima de todas as guerras.

Os correspondentes de guerra dependiam inteiramente dos militares: autorização para acesso ao teatro de operações, transporte, alojamento, transmissão de textos e fotografias, etc., tudo era controlado por eles. Isso, em termos práticos, subordinava os jornalistas aos governos e aos militares. Não apenas material que pudesse colocar em risco as operações militares propriamente ditas, mas quaisquer fatos cuja divulgação não interessasse aos governos eram censurados. Jornalistas que não cooperassem, simplesmente não conseguiam fazer seu trabalho.

Durante a guerra do Vietnã, o cenário começou a mudar. Esse conflito viu não só o primeiro computador ser utilizado no "front" (um Univac 1005), mas também a utilização de novas tecnologias pela imprensa: transmissões via satélite, equipamento portátil de TV e vídeo permitiram que milhões de americanos conhecessem, de suas casas, o horror da guerra. Imagens de mortos e de feridos ainda no campo de batalha abalaram profundamente a opinião pública, que deixou de apoiar a guerra e contribuiu decisivamente para a derrota americana naquele conflito.

No Iraque as coisas começaram como sempre: com mentiras acerca das armas de destruição em massa e da forma amistosa com que os iraquianos receberiam os "libertadores" americanos, o governo daquele país justificou o ataque ao Iraque e procurou ganhar o apoio da opinião pública.

Mas a tecnologia, que garante a enorme supremacia militar americana, vem contribuindo para que mais e mais seu governo se veja em situação difícil. Fotos e vídeos feitos por soldados americanos no Iraque chegam à imprensa, sem que os chefes militares consigam controlá-los.

Esses soldados, jovens que fazem parte da "geração Napster", que pelo uso intensivo da tecnologia está fazendo uma indústria de 30 bilhões de dólares (a da música) rever sua estratégia de negócios, agora estão fazendo os militares repensarem suas próprias estratégias. O enorme fluxo de informações fluindo do Iraque para o mundo sem qualquer controle, tem conseqüências potencialmente desastrosas, como já mostraram as fotos e vídeos de torturas que estão dando a volta ao mundo.

Celulares com câmeras, câmeras digitais, handhelds e laptops são objetos de uso diário para milhares de soldados vivendo em bases no Iraque, quase todas dispondo de acesso à Internet. Emails com textos, vídeos e fotos são remetidos aos milhares; muitos militares mantêm "blogs". O cenário mudou: as autoridades descobriram que precisam controlar não apenas os jornalistas, mas também os combatentes - e obviamente não estão preparadas para isso.

Resta saber se a verdade continuará a ser a primeira vítima ou se o aumento do uso da tecnologia digital permitirá que ela sobreviva, o que seria muito bom para toda a humanidade.

Data de Publicação: 13/08/2004


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