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WideBiz

O microcomputador: paternidade discutida
Vivaldo José Breternitz

Em 1975 foi vendido aquele que é tido como o primeiro microcomputador: o Altair, com memória de 256 bytes, fornecido sob a forma de kit a ser montado pelo usuário. A máquina não tinha monitor de vídeo, teclado, disco de qualquer espécie nem podia ser ligada a uma impressora. Era programada através de “switches”, e os resultados do processamento eram fornecidos por luzes situadas no painel. O Altair rodava um compilador BASIC escrito por um grupo de jovens estudantes e profissionais, dentre eles, Bill Gates.

No entanto, assim como nós brasileiros creditamos a Santos Dumont a invenção do avião, enquanto os americanos cultuam os irmãos Wright, os italianos consideram o engenheiro e professor universitário Pier Giorgio Perotto, recentemente falecido aos 71 anos de idade, o verdadeiro inventor dos micros. Perotto trabalhava para a Olivetti, e em 1965 criou a máquina que os italianos consideram o primeiro computador pessoal, o Programma 101, bem como o cartão magnético, o antepassado dos disquetes. Os italianos levam esse assunto muito a sério, a ponto de Perotto ter recebido um dos mais importantes prêmios científicos daquele país, o Leonardo Da Vinci, concedido pelo Museu de Ciência e Técnica de Milão.

Em meados dos anos 60, a Olivetti havia praticamente abandonado a eletrônica, o que impediu que o Programma 101 fosse um grande sucesso de vendas – no entanto, para sinalizar sua importância, basta lembrar que a Hewlett Packard teve despesas de cerca de um milhão de dólares (da época) por ter fabricado equipamentos que violavam patentes que haviam sido obtidas para o 101. Em termos de Brasil, o abandono da eletrônica teve para a Olivetti consequências catastróficas: dominava o mercado com suas máquinas de escrever e calculadoras, tinha uma grande fábrica em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo (hoje um shopping center) e atualmente tem uma presença pouco mais que simbólica.

Perotto sonhava com uma máquina que pudesse se encarregar das tarefas que gerassem “fadiga mental” e erros. Pretendia que a máquina pudesse ser utilizada de forma intuitiva, sem que seus usuários tivessem que passar por grandes programas de treinamento e que custasse pouco, ao menos diante dos grandes computadores da época.

Para a nova máquina, Perotto e seus colaboradores utilizaram transistores (os circuitos integrados ainda não estavam disponíveis) e desenvolveram uma linguagem muito simples, parecida com o Basic, com apenas 16 instruções. A máquina tinha teclado e impressora semelhantes aos calculadoras de mesa e o cartão magnético serviria como meio de armazenagem de dados; as máquinas dispunham de unidades que permitiam ler e gravar essa mídia, com cada cartão podendo armazenar a “prodigiosa” quantidade de 480 caracteres!

Apesar de sua máquina não ter sido um sucesso comercial e não ter se firmado como um padrão de computação, aqueles que cultuam o Altair devem conviver com o fato de em 1965 a grande imprensa americana, através do New York Times, Wall Street Journal, Business Week e outros, ter chamado o 101 de “o primeiro computador de mesa do mundo”.

Para os leitores que dominam o idioma italiano e que quiserem conhecer mais detalhes da história, um bom endereço é o www.finsa.it/finsait/form/libriperotto/programma%20101/101.htm. Ali não faltam toques de conspiração, pois se levanta a hipótese de os americanos terem sabotado a Olivetti, impedindo seu crescimento na área de computadores. Como dizem os italianos, “se non è vero, è bene trovatto”…

Data de Publicação: 27/02/2002


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