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Em tecnologia, a oferta precede a demanda
Vivaldo José Breternitz
Nos últimos dois anos, cerca de 150 milhões de quilômetros de cabos de fibra ótica foram lançados nos Estados Unidos por empresas que pretendiam aproveitar o “boom” da Internet.
O custo para instalação dessa infra-estrutura foi de cerca de US$ 35 bilhões, e para tristeza dos que investiram esse valor, boa parte da capacidade instalada permanece ociosa. Empresas do ramo permanecem operando “no vermelho”, e os “brokers” (corretores) que negociam “espaço” em canais de comunicação têm informado que os preços estão caindo nos mercados futuros. Assim como se negocia petróleo, ações e outros bens para entrega no futuro, também há mercado para negociação do uso desses canais no futuro (seria uma espécie de reserva de espaço nesses canais).
Repetidas vezes investidores colocaram fortunas em novas tecnologias e viram-se às voltas com capacidade ociosa e se auto destruíram em guerras de preços com outros empreendedores que detinham posições semelhantes; porém, a História mostra que a tendência dessa situação é de reversão.
Em artigo recente, discutindo a ascensão e queda das empresas “pontocom”, lembrávamos que entre 1904 e 1908, mais de 240 companhias entraram no então nascente mercado de fabricação de automóveis, mas que em 1910 a grande maioria dessas empresas havia desaparecido. A história se repetiu com as ferrovias: nunca se assentaram tantos quilômetros de trilhos como na década de 80 do século XIX; dez anos depois, o número de ferrovias quebradas era o maior de toda a história.
Esse aparente fracasso contribuiu para o florescimento do oeste americano, permitindo o surgimento de novas cidades e empresas. A respeito da competição entre as ferrovias no período, o historiador Julius Grodinsky disse: “alguns investidores ganham e outros perdem, mas o público se beneficia”. Talvez aqui se possa fazer uma analogia com a situação atual de nossas empresas de aviação civil.
Segundo o historiador Richard R. John, da Universidade de Illinois, a turbulência no mercado de transmissão de dados é bastante previsível. Lembra John que o sistema telegráfico americano demorou quinze anos para começar a gerar lucros, principalmente por ter sido instalado com capacidade suficiente para suportar um tráfego que se concentrava nos horários de expediente empresarial nos dias úteis.
O sistema rodoviário em torno da cidade de New York foi construído inicialmente para permitir que os residentes pudessem alcançar as praias e parques situados em torno da cidade. No entanto, alavancou o desenvolvimento dos subúrbios da metrópole, permitindo que muitos que trabalhavam no centro da cidade pudessem ter uma qualidade de vida melhor nesses subúrbios, locomovendo-se diariamente para o trabalho.
Há várias razões pelas quais a situação de subutilização das redes de fibra ótica deve ser revertida. Acredita-se que tão logo o problema da chamada “última milha” (last mile) seja resolvido, haverá um enorme aumento da utilização da Internet, ajudando a diminuir a capacidade ociosa das grandes redes. Lembre-se que a “última milha” sempre foi o pesadelo dos profissionais de telecomunicações: trata-se do trecho, usualmente curto, que conecta as residências e escritórios aos canais de comunicação de banda mais larga. Esse trecho, normalmente constituído por linhas de tecnologia mais antiga e freqüentemente instaladas de forma mais precária, acaba congestionado, comprometendo a performance não só de serviços mais sofisticados como a Internet, mas às vezes até mesmo do serviço telefônico padrão.
A conexão à Internet de outros dispositivos domésticos ou de uso comercial e industrial também deve atrair mais tráfego, ajudando a transformar aquilo que na linguagem das bolsas de valores é chamado de “mico”, numa ferramenta de geração de lucros.
Data de Publicação: 13/02/2002
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