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Gordon Moore: um pioneiro se retira
Vivaldo José Breternitz

Os grandes nomes da Tecnologia da Informação desfilam pela grande imprensa internacional seu egos inflados: Bill Gates, Steve Jobs, Larry Ellison e outros trocam ironias e desafios envolvendo suas empresas, seus produtos e suas visões do futuro, quase sempre mais preocupados em alfinetar seus concorrentes do que em discutir seriamente os temas acerca dos quais estão falando.

Dentre esses grandes nomes, uma das exceções em termos de comportamento, o professor Gordon Moore em parceria com Robert Noyce fundou em 1957 a Fairchild Semiconductor (que projeta e fabrica uma grande variedade de dispositivos microeletrônicos) e uma década mais tarde a Intel, hoje líder mundial em projeto e manufatura de chips, com receita anual da ordem de US$ 34 bilhões.

Moore é também muito conhecido por haver publicado em 1965 na “Electronics Magazine” um artigo expondo um conceito que viria a ser conhecido como a Lei de Moore: o poder de processamento do chip padrão dobraria em períodos que variariam de 18 a 24 meses, acelerando assim o ritmo das mudanças tecnológicas pelo grande aumento da capacidade de processamento. Vale lembrar que o primeiro chip apareceu no mercado em 1961; em 1965, quando Moore publicou seu artigo, o chip mais poderoso do mercado, e que havia sido desenvolvido pela Fairchild, possuía 64 transistores; um Pentium III, o mais comum atualmente, possui 28 milhões.

Moore está anunciando sua aposentadoria, aos 72 anos; mantendo sua postura, em entrevista concedida ao “New York Times”, teceu considerações acerca da rapidez das mudanças tecnológicas, reconhecendo que sua aceleração está provocando uma aceleração das mudanças nos outros aspectos da vida; sem endeusar a tecnologia, reconhece que seu avanço coloca as pessoas sob tensão constante, mas acredita que de forma geral o desenvolvimento na área traz mais aspectos positivos que negativos, citando como exemplos progressos na área de saúde, aplicações dos computadores na educação, etc.

Perguntado acerca de problemas trazidos pela generalização do uso de computadores no trabalho, em especial problemas quanto ao isolamento das pessoas, disse não acreditar ser esse um problema maior que o enfrentado pelas pessoas que trabalhavam (e trabalham) em linhas de produção na indústria automobilística, por exemplo, onde os empregados podem se ver mas não conseguem se falar.

Moore falou também acerca de problemas que podem vir a ser enfrentados pela economia americana, dizendo preocupar-se com o fato de os estudantes americanos não estarem recebendo adequada formação técnica. Sabe-se que as universidades daquele país vêm recebendo um grande número de estudantes estrangeiros que retornam aos seus países após sua graduação, gerando um efeito de “exportação de conhecimento tecnológico”. Reconhecendo também que seu país está utilizando mão de obra técnica formada em outros países, Moore considera a educação como “o calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos. Podemos aqui apresentar uma experiência pessoal: estivemos recentemente apresentando um trabalho em um congresso naquele país, ocasião em que o diretor da Faculdade de Engenharia da Universidade de Cincinnati nos fez colocações similares, dizendo que a maioria de seus alunos em cursos de pós-graduação eram estrangeiros.

Em um nível menor de importância, Moore falou acerca da sensação de frustração sentida pelo cidadão comum que ao comprar um microcomputador está ciente de que o mesmo muito em breve será obsoleto ou não mais um produto “de ponta” - é conseqüência direta da lei de Moore que os preços diminuam ao mesmo tempo em que o poder dos chips cresce: o computador adquirido hoje custará a metade no próximo ano e estará obsoleto em dois anos. Moore, com seu humor peculiar, disse que a solução para esse problema é simplesmente paralisar o processo de desenvolvimento tecnológico...

Finalmente, Moore falou acerca do futuro da Intel: disse que ela é uma grande empresa, atuando num mercado que muda constantemente, e que em função disso, tem muitas oportunidades de continuar crescendo (deposita grandes esperanças em seu novo chip, que é conhecido pelo codinome “McKinley”), apesar da concorrência cerrada da AMD - Advanced Micro Devices, seu principal adversário. Mas esse mesmo cenário dá aos seus dirigentes inúmeras oportunidades para cometerem grandes erros, e que o principal cuidado dos mesmos deve ser o de evitar esses grandes erros (como a avaliação equivocada do prazo necessário ao lançamento do novo chip Itanium, destinado a computadores de grande porte).

Concluindo, foi uma grande entrevista de um grande empresário e cientista, que olha para o futuro consciente de que não precisa estar sob as luzes da ribalta para que sua contribuição à ciência e à tecnologia seja reconhecida.

Data de Publicação: 15/08/2001


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