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O Genoma e a nossa auto-estima
Vivaldo José Breternitz

A baixa auto-estima é uma das coisas que mais nos afeta enquanto brasileiros. Muitas vezes, tem como contraponto uma euforia totalmente desproporcional à importância do fato que a causou, como por exemplo, quando Barrichello ganhou sua primeira corrida pela Ferrari. Minha dúvida é: qual das atitudes é pior para o Brasil?

Essa dúvida certamente nunca será esclarecida, mas nesse momento, gostaria de falar um pouco acerca de um fato relativamente recente que teve escassa repercussão em nossos meios de comunicação, exceto naqueles mais voltados para assuntos científicos, e que neste momento, ao voltar à mídia, certamente deve servir para elevar um pouco nossa auto-estima: o fato de cientistas brasileiros terem decifrado o código genético (genoma) da "Xylella fastidiosa", um microorganismo que causa uma doença chamada "amarelinho", que todos os anos destrói cerca de um terço de nossa colheita de laranjas; o conhecimento do código permitirá que a doença seja combatida de forma mais eficiente, evitando prejuízos da ordem de US$ 100 milhões/ano.

O grupo de cientistas é coordenado pela FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, um órgão de nosso governo estadual fundado há aproximadamente 50 anos e que é um dos mais importantes, se não o mais importante, órgão voltado à pesquisa em nosso País. É verdade que a pesquisa científica no Brasil é muito pequena, se levarmos em conta o tamanho de nossa economia ou de nossa população; mas de qualquer forma, hoje já publicamos cerca de 1,5% dos trabalhos científicos de todo o mundo, mais do que todo o restante da América Latina somado.

O fato foi noticiado com destaque pela publicação inglesa "Nature", uma das mais prestigiosas do mundo e por outras, como a americana "Newsweek. Da leitura dessas publicações, pode-se tirar algumas informações úteis e até surpreendentes, como o fato de, estando as pesquisas do código genético espalhadas por dezenas de laboratórios situados no Estado, ter havido a decisão de transforma-los num só laboratório "virtual", ao invés de juntá-los fisicamente, o que certamente teria sido muito mais difícil, demorado e caro. E ainda mais: o projeto foi concluído dois meses antes do prazo fixado, tendo sido gastos apenas 13 dos US$ 15 milhões previstos!

O sucesso foi de tal ordem, que o Departamento (Ministério) da Agricultura dos Estados Unidos está pedindo apoio da FAPESP para pesquisas semelhantes com relação a microorganismos que atacam os vinhedos da Califórnia. Além disso, a FAPESP está envolvida em projeto semelhante para que seja decifrada a estrutura do genoma de tumores, o que também pode ajudar na busca de cura para o câncer - nesse tipo de pesquisa, só os Estados Unidos e a Grã Bretanha estão mais avançados que o Brasil. O êxito obtido está levando à entrada de novos trabalhos e novos recursos, criando um "círculo virtuoso" que pode alavancar significativamente a pesquisa em nosso país.

Fatos como esse devem nos estimular a despir a máscara de derrotados, para que lembremos que trabalho, educação e organização podem nos ajudar a levar o Brasil à frente, contribuindo para que nossos compatriotas que ainda se encontram abaixo da linha da miséria possam atingir um patamar de vida mais digno.

Data de Publicação: 12/02/2001


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