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Saudades de mim!
Silvio T. Corrêa
Uma, ainda pequena, fila de latinhas de cerveja, já vazias, olhavam para mim. Paradas, sem nada dizerem, marcavam o tempo que eu estava sentado naquela mesa, num barzinho do subúrbio carioca.
Eu precisava encontrar o momento em que aconteceu a mudança na minha vida. Na minha vida não, em mim !
A agonia de não saber o que fazer e querer fazer tudo ao mesmo tempo, me davam aquela sensação de impotência diante da vida.
Minha infância foi muito boa, não tinha o que reclamar. Nunca passei fome ou qualquer tipo de necessidade. Meus pais viviam muito bem. É ... a paz reinava na minha infância. Não foi ali que ocorreu qualquer coisa que pudesse alterar o meu caminho.
- Pedro ! Traz mais uma latinha !
Minha adolescência também foi tranqüila. Viagens, festas, amigos, sonhos, paixões. É, foi uma época muito rica em experiências e com muito aprendizado.
A faculdade ! Época boa aquela. Grandes sonhos para depois da formatura. Nem todos os sonhos são realizados, eu sabia, mas eram eles que me empurravam para frente, sempre para frente. Sonhos de fazer alguma coisa, de criar algo. A faculdade terminou, mas os sonhos continuaram a ser o script das cenas da minha imaginação.
Ainda na faculdade, o primeiro emprego. Mesmo não formado, já me chamavam de doutor. Como era importante, àquela altura, ser reconhecido, ainda que por pessoas tão desconhecidas quanto eu.
Me lembro da alegria quando fui, já formado, chamado para trabalhar no maior empresa de computadores da época. Era um dos meus sonhos do tempo de faculdade. Com orgulho ostentava o crachá e com mais orgulho ouvia as pessoas: - Poxa ! Você trabalha lá ?
O país mudou e o sonho acabou. Trabalhei em outras empresas, mas não era a mesma coisa. Sentia com se uma etapa da minha vida tivesse terminado. Entretanto, continuava cheio de gás e de novos sonhos. Ah ! Sonhos ... sempre os sonhos.
Talvez estivesse na hora de ter uma empresa. Foi o que fiz.
- Traz mais uma gelada !
Foi nessa época que aconteceu a primeira crise de pânico. Acho que foi ali, naquele ônibus lotado, na Av. Presidente Vargas, que mudei. Até hoje, não sei se foi algo bom, ou não.
Eu sabia o motivo daquela crise. Eu havia caído na esparrela de ferir o bem mais valioso que meu pai me deixara: a Honestidade.
Mas não havia, ainda, atingido ninguém. Não havia percebido que eu tinha me atingido.
Com um plano de tolo, encontrando motivos onde não existiam, argumentos que só se sustentavam na minha imaginação, eu me feri novamente.
Feri amigos, magoei pessoas, perdi o crédito em mim mesmo. A dor era profunda. Procurava as desculpas para calar meu coração, mas elas não existiam. Meu corpo resolveu demonstrar o seu descontentamento pelo que eu estava infligindo a ele.
Não, nunca houve outro episódio, mas as marcas perduram até hoje. Não importa se alguém sabe dessa história. Importa que eu sei !
- Pedro ! Fecha a conta !
(Esse conto faz da parte do livro e da palestra "O vale das empresas.")
Data de Publicação: 13/02/2002
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