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A Máscara da Espiritualidade
Silvio T. Corrêa
Cada vez fala-se mais sobre espiritualidade na empresa e nos negócios.
A impressão que dá é que um sujeito, como eu e você, chega na empresa,
aciona um pequeno dispositivo e toma um banho de verniz, com o nome de
espiritualidade, que dura enquanto estiver na empresa.
A espiritualidade na empresa e nos negócios é um assunto sério e
importante. Exercer a espiritualidade "apenas" nesses locais, cria um vazio
difícil de preencher.
Fica muito difícil exercer a humildade abrindo mão do orgulho, da vaidade
e do egoísmo, apenas dentro da empresa. Soa falso, pequeno e medíocre.
"Poxa! No trabalho ele(a) é alegre, espontâneo(a), um doce de pessoa."
Não é difícil sabermos de exclamações dessa natureza. No trabalho é de um
jeito e, em casa, de outro. Cai a máscara!
No site da ELOS (http://www.elosbrasil.org.br) constam as premissas que
norteiam o trabalho da entidade e que, de forma geral, são norteadores de
outros trabalho sobre o assunto.
- A crença na existência de um Poder Universal e Criador, nos inspira na
prática da espiritualidade.
- A espiritualidade respeita todas as práticas religiosas e filosóficas e
é a base de relações conscientes.
- A vida tem significado na sua abundância e nela encontramos o maior
referencial das nossas escolhas.
- A liderança é uma arte de ser, e não apenas uma competência do fazer.
- Cada indivíduo faz diferença, porque tudo o que há nele se interconecta
com o todo.
- Somos todos aprendizes e servidores de nossos valores.
- As organizações são sistemas vivos e como tais, devem ser cuidadas.
- As organizações humanizadas levam a uma conduta social e ecológica,
integrando a sua própria prosperidade com a do país e a do mundo.
Podemos entender "uma organização" como uma empresa, mas também podemos
entendê-la como "uma família".
"No trabalho sou todo amor, me dirigindo às pessoas com gentileza e
cortesia (por dentro, estou xingando). Quando chego em casa, todo aquele
sentimento reprimido explode em cima dos filhos, do companheiro(a) e quem
mais estiver presente." Não, isso não é espiritualidade, é falsidade.
O conceito de espiritualidade está errado? Claro que não! A restrição
aparente ao ambiente empresarial e de negócios é que faz o conceito ficar
incompleto. O liderado fraco e sem opiniões no trabalho pode ser o líder,
pela força, em casa.
De acordo com o que tenho lido, podemos estar cometendo com a
espiritualidade o mesmo erro cometido pela qualidade total, em relação aos
colaboradores: "Só existe preocupação até os muros da empresa."
Vejo a preocupação com o ser integral - corpo e espírito -, mas não vejo a
preocupação com o ser indivisível, aquele que, em essência, é o mesmo no
âmbito profissional, familiar e social.
Em um artigo anterior, falei, como todos que escrevem sobre o assunto,
que a espiritualidade na empresa não tinha ligação com religião (Michaelis:
2. Sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura
humana ao Criador.). Na verdade, não tem ligação com uma determinada
religião, tendo toda ligação com "religare", palavra em latim de onde
originou a palavra religião [sic].
O que acontece é que todos nós estamos sendo "religados", ficando
conscientes de uma força superior, acima de nós. Chame de Deus, Jeová,
Natureza, como quiser, mas essa força existe, é perceptível, universal e
estamos ligados a ela.
Muitos tentam explicar o mecanismo da motivação, utilizando a Pirâmide das
Necessidades de Maslow. O que não é dito é que Maslow falou também da
necessidade do ser espiritual e foi o precursor da Psicologia Transpessoal,
chamada de a Quarta Força da Psicologia.
De acordo com Vera Saldanha em A Psicoterapia Transpessoal (Editora
Komedi - Campinas - 1997), a Psicologia Transpessoal é conceituada como
sendo "o estudo e aplicação dos diferentes níveis de consciência em direção
à unidade fundamental do ser. A visão de mundo, na transpessoal, é a de um
todo integrado, em harmonia, onde tudo é energia, formando uma rede de
inter-relações de todos os sistemas existentes no universo."
Assim, para atingirmos a auto-realização, a motivação, o topo da Pirâmide
das Necessidades, necessitamos transcender a um nível de consciência além do
"nosso umbigo", quando então entenderemos que "o todo é maior que a soma
das individualidades"; e isso é verdadeiro para o ser integral, esteja ele
em qualquer âmbito.
Acredito que o maior problema da abordagem da espiritualidade fora da
empresa e dos negócios, é que a mesma já é feita pelas religiões e,
acreditam, não devem misturar as duas.
Entendendo que o mais forte alicerce da espiritualidade é o Amor, os
entraves deixarão de existir.
Silvio T. Corrêa (silvio_correa@terra.com.br)
Data de Publicação: 11/12/2003
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