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Facilitador
Silvio T. Corrêa

( Facilitador, segundo a andragogia, é o nome dado ao profissional que dá aulas para adultos [sic].)

Nas horas que antecedem o início do curso, aquele “friozinho na barriga” , a ansiedade de uma nova turma com pessoas que você, sequer, consegue imaginar o que está passando na cabeça delas.

Lembro da minha primeira experiência de “falar em público”. Estava cursando o primeiro ano do, antigo, científico (colegial). Era a apresentação de um trabalho.

O rosto dos meus colegas ... sérios .... os olhos fixos .... as bocas sem esboçarem um sorriso. Aquilo me deixou desesperado. Meus olhos foram ficando turvos, como se uma densa névoa os estivesse encobrindo. Cada vez mais escuro e logo em seguida, eu já não via nada. Encerrei minha apresentação que, acredito, deve ter durado uns 90 segundos.

Acho que a experiência causou um trauma, pois não consigo ministrar um curso como gostaria, para uma turma que fique muito séria e que torne o treinamento muito pesado. Quando isso acontece, encaro como um “feedback” negativo; que o curso não está “legal”.

Recentemente, entretanto, tive uma turma que agiu assim. Eu falava e a turma séria, sem fazer qualquer colocação, qualquer observação. Toda hora eu forçava o “feedback” dos alunos; “Vocês estão calados ! Está tudo O.K. ?”. Obtinha sempre um retorno positivo mas continuava preocupado.

Somente após as 24 horas do curso, na avaliação, tive a certeza de que aquela foi uma turma diferente. Eu fui professor. Era como se estivesse “ensinando” algo totalmente novo. Foi uma das melhores avaliações.

Pois então; o “frio na barriga” continua até cumprimento à turma. A partir desse instante, a ansiedade desaparece para dar lugar a atenção.
Dificilmente consegue-se ensinar alguma coisa nova para profissionais, principalmente nos treinamentos que ministro, voltados à área do comportamento, das relações humanas. Aqui está o trabalho, e o desafio, do facilitador e a razão da denominação; “mostrar um novo olhar sobre um caminho já percorrido”.

Não há como ficar preso a muito conteúdo pois, normalmente, são assuntos conhecidos. O “grande lance” é manter total atenção aos cursistas e deles resgatar o verdadeiro conteúdo do curso. Fazer isso numa turma de 40 alunos é algo estafante e totalmente gratificante.

Uma coisa difícil é trabalhar com as expectativas dos alunos. Uns, por qualquer motivo, não queriam estar ali; outros, muito empolgados, estão com uma expectativa muito alta e outros ainda, estão ali passando o tempo. Resgatar essas expectativas e adequá-las à realidade do curso é uma das primeiras atividades do facilitador.

Um facilitador tem que tomar para si, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso do treinamento. Vejam, eu disse responsabilidade, não disse culpa.

É fácil dizer “os alunos não querem nada”, “estão aqui para brincar”. É mais difícil dizer “o que estou fazendo ou deixando de fazer, para que os alunos estejam agindo dessa forma?”.

A culpa, pelo sucesso ou fracasso, sempre será do facilitador e dos cursistas.

Tem muita gente que é contra o uso de dinâmicas de grupo. O problema não está na dinâmica, mas em quem a aplica.. Tem gente que aplica dinâmica utilizando uma receita de bolo. “A dinâmica é assim e eu vou resgatar assim.”

A dinâmica necessita de atenção total daquele que a aplica. Como sempre, a “atenção” é o ponto chave.
Não apliquem uma dinâmica, não façam uma discussão em grupo, não ministrem um treinamento, sem saber porque estão fazendo..

Isso me lembra um caso de um amigo que foi visitar um primo, um fazendeiro.

Sendo levado para conhecer a fazenda e dar algumas sugestões de melhoria, se depararam com uma cena curiosa:
Dois funcionários estavam trabalhando. Um, com a enxada, abria um buraco e o outro, logo atrás, colocava a terra de volta. E assim iam trabalhando.

Curioso, esse meu amigo se aproximou e perguntou:

- O que vocês estão fazendo ?

- Ué seu doutor. Estamos na lida.

- Mas que negócio é esse. Um abre o buraco e o outro fecha ? – perguntou o fazendeiro.

- É que o Pedro, que punha as sementes, ficou doente e não pode trabalhar.

Data de Publicação: 10/10/2001


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