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O último email
Silvio T. Corrêa
Tudo preparado. Até mesmo a roupa, para última morada, já estava separada.
Tinha uma empresa, mas era separado da família e sem perspectivas - mesmo
a longo prazo -, Alfredo Boamorte já não tinha mais intenção de viver. Mas
também, com esse sobrenome !!!
Parece que o sobrenome era em homenagem a algum fato ocorrido há 5 ou 6
gerações. Algo ligado a um milagre. Alfredo não sabia direito, mas agora não
importava mais.
Suicídio ? Não, Alfredo não pensava nisso. Apenas sentia que seus dias
estavam terminando e assumiu como fato. De certa forma, isso lhe tirava as
forças para continuar vivendo.
Ultimamente, procurava fazer tudo que não tinha feito nos últimos 55 anos,
mais por raiva do que por prazer. Chegou a comprar um computador para sua
casa e poder escrever suas memórias. Comprou o mais moderno que existia;
afinal, suas memórias, seria o seu último trabalho.
Freneticamente começou a escrever seu livro, que pretendia deixar para ...
para ... bolas!, para quem quisesse ler.
Com sua mania de perfeição, Alfredo lia e relia o que tinha escrito.
Acertava as concordâncias, tirava e colocava vírgulas, reescrevia alguns
trechos. Muito minucioso, vez por outra se perdia em detalhes sem
importância e lá ia Alfredo mexer no texto.
Iniciava o trabalho do livro as 8 da manhã e só parava com a chegada do
sono. Mesmo sonhando, Alfredo pensava no livro.
Alfredo tinha pressa em acabar o livro e eram tantas passagens na sua
vida - passagens que agora ele percebia como eram interessantes - que por
mais que ele quisesse apressar não conseguia.
As vezes Alfredo parava para relembrar situações vividas e se empolgava
com elas. Ora dando gargalhadas de doer a barriga, ora chorando
copiosamente. Talvez ele estivesse vivendo sua vida, intensamente, pela
primeira vez.
A secretária eletrônica acumulava muitas mensagens que Alfredo apagava sem
as escutar. O propósito daquele livro era o que interessava.
Tentando relembrar uma passagem da sua juventude, alguns detalhes estavam
faltando e, irritado, não viu saída que não fosse telefonar para um antigo
amigo seu.
Quantas lembranças vieram ao conversar com Randolpho! Lembraram de outros
colegas, das garotas, das armações e emoções vividas, das serenatas e dos
tomates jogados, das viagens. Ele lembrou dos detalhes que queria e muito
mais, que agora queria registrar no livro da sua vida.
Alfredo ainda não tinha se dado conta que já havia passado mais de 1 mês
escrevendo.
- Deixar algo para depois da minha morte - Alfredo sentiu uma leve
perturbação com essa última palavra - é meu último sonho e quero
concretizá-lo.
Em alguns dia na semana Alfredo escutava algumas mensagens na secretária,
achando que Randolpho poderia telefonar.
As lembranças continuavam brotando e na cronologia da seu livro, não havia
chegado nem aos 20 anos. Estava em plena época da faculdade.
Vez por outra dava voltas no bairro, para pegar um pouco de inspiração.
Começou a perceber a copa das árvores, o perfume da "dama-da-noite". Tinha a
sensação que nunca tinha olhado para as árvores e nem sentido os perfumes
das flores.
Voltando ao livro, lembrou-se das noites que "virava" com os colegas da
faculdade, estudando para as provas. Olhou para a estante em frente e viu os
livros da época de faculdade. Pegou alguns e deu uma olhada. Um, em
especial, chamou sua atenção ao folheá-lo.
Era de Química e recordou um problema que só ele havia conseguido
resolver. Tomado de emoção, lembrou da alegria interna ao ser elogiado pelo
professor. O episódio estava perdido nas tramas do esquecimento da memória.
A imagem da formatura, num passe mágico, surgiu pendurada na tela do
passado.
A empolgação de ter se formado fez o coração vibrar, como se o momento
fosse presente.
Há noventa dias escrevendo, revendo e reescrevendo, Alfredo era outro.
Um dia, acordou pela manhã e por um motivo qualquer, mexeu embaixo da
cama. Encontrou uma mala e puxou-a. Limpou a poeira e abriu. Uma calça, uma
camisa, um par de meias, uma cueca e um par de sapatos.
Olhou pensativo para aquelas roupas. Algumas lágrimas rolaram com um
sorriso no rosto. Percebeu que já havia morrido e renascido.
Fechou a mala sem mexer em nada.
Colocou no carro, saiu e entregou a mala para um mendigo, desejando de
coração que aquelas roupas também efetuassem uma transformação para aquele
que apesar de não conhecer, sentiu, que era um irmão.
Data de Publicação: 26/09/2003
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