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Convivencialidade
Silvio Corrêa

No pátio da empresa ...

- Colaboradores da minha empresa ! Trago uma ótima notícia. Estamos começando a preparar o Planejamento Estratégico da nossa empresa.

(Alguém levanta a mão).

Você aí ! Pode falar.

- O que é esse Planejamento Estratégico ?

- É o instrumento que nos permitirá crescer.

Nos meses seguintes, um certo “frisson” tomou conta da empresa. O tal do Planejamento Estratégico era o ponto alto das conversas de corredor.

- E o Planejamento Estratégico ?

- Comigo, ainda não vieram conversar.

- Ué ! Vão conversar com a gente ?

- Acho que sim. Existem problemas que devem ser resolvidos.

Mais um tempo passado e o Planejamento ficou pronto, com tudo que tinha direito: Missão, Visão Estratégica, Objetivos e Metas, Pontos Fortes e Fracos, Ameaças e Oportunidades. Era um respeitável e volumoso Plano, como só as grandes firmas de consultoria sabem fazê-lo.

Cartazes com a Missão da empresa eram fixados em todos os lugares. Não levou o tempo de 5 dias e todos já sabiam, “na ponta da língua”, o texto da Missão.

No entanto, havia um sério problema. Ainda que detectado (de modo insipiente), não foi incluído nos chamados Pontos Fracos. Era um problema de relacionamento humano; um gravíssimo problema.

“Ora, mas não há como acabar com esse tipo de problema !” – dizem alguns.

Infelizmente é uma verdade. Não há como extirpar, ainda, e totalmente, esse mal.

Entretanto, a partir do momento que ele compromete o desenvolvimento da empresa, a convivencialidade entre os seus colaboradores, algo urgente tem que ser feito. Nenhuma estratégia consegue sobreviver a essa mazela.

Nenhuma organização, por mais simples ou complexa que seja, consegue ficar imune as conseqüências.

Esse problema é um dos maiores entraves no crescimento qualitativo de uma organização.

Que organização ?

Qualquer uma. Desde a célula da sociedade – a família também é uma organização – até uma grande corporação. Todas elas sofrem as conseqüências de um relacionamento deteriorado.

Todos sabem; uma organização é uma entidade formada por pessoas, por seres humanos. Por isso diz-se que uma organização é uma entidade viva, pulsante, até mesmo com alma. É uma coletividade de individualidades onde todos tem o mesmo propósito.

É um círculo vicioso. A individualidade influencia a coletividade que, por sua vez, influencia a individualidade.

A estória de “vestir a camisa da empresa” é uma influência perniciosa. Se alguém veste a camisa da empresa, o universo profissional e pessoal fica limitado aos muros da organização. O resultado é que as pessoas passam a ter como objetivo o crescimento dentro desse minúsculo universo e passam, ainda que inconscientemente, a enxergar tudo e todos como potenciais obstáculos para o seu sucesso.

Cada um de nós precisa vestir a “própria camisa”. Reparem nas diferenças de universo.

Enquanto àquele que veste a camisa da empresa tem vários universos isolados e estanques, o que veste a própria camisa tem apenas um universo composto de vários ambientes que interagem entre si.

Acaba a “concorrência” com o gerente do departamento que fica ao lado. Poderia haver uma suposta “concorrência” com todos gerentes, de todos departamentos, de todas empresas, mas é algo inviável a tentativa de “controlar” essas variáveis. Só resta uma solução: Executar o trabalho da melhor forma e procurando, sempre, melhorar.

A diferença “salta aos olhos”. Aquele colega de trabalho, aquele gerente de departamento, aquele diretor, deixa de ser uma ameaça para tornar-se uma oportunidade. Oportunidade de novos conhecimentos, novas competências, oportunidades de crescimento e aprendizado.

Um detalhe que não mencionei. É claro que o crescimento profissional e pessoal faz com que as organizações, das quais ele participa, também cresçam como entidades.

É desnecessário o alerta de que esse não é o único motivo, gerador de problemas, no relacionamento humano. Existem diversos.

A não predisposição para geração de empatia, principalmente no aspecto emocional, é um sério fator.

É muito comum encontrarmos opiniões divergentes à nossa. Qual é, normalmente, a nossa ação quando nos encontramos nessa situação ? Fincamos o pé dizendo que a nossa posição é a correta e partimos para a discussão pessoal.

Ganhamos algo agindo assim ? Ao contrário, perdemos a oportunidade de conhecer um outro ponto-de-vista, baseado em outras informações, com alguém que vive em um ambiente distinto. Perdemos a chance de aprender na diversidade que a vida nos oferece.

É primordial considerarmos que, inicialmente, “todos” estão certos. O importante é que consigamos entender sob qual ponto-de-vista. Quando não agimos dessa forma incorremos no erro de discutir as pessoas e não as idéias.

Outros tipos de organizações começam a surgir. O mais recente e que começa a ganhar muita força é a virtual. As comunidades virtuais, ou como sugerem alguns, as comunidades digitais.

Nesse tipo de organização alguns princípios são fundamentais para que a comunidade atinja o objetivo de gerar conhecimento. Respeito a todos os integrantes, transparência, consciência de que por mais que você saiba sempre existirá algo a aprender, honestidade, humildade e humanidade.

Nos tempos atuais, tempos de Internet, tempos de rompimento de barreiras na convivencialidade, nas “conversações”, as empresas cometem o grave erro da proibição aos seus colaboradores, da troca de e-mails (entenda-se como “conversações”) com o mundo exterior à empresa.

Estamos custando a aceitar que os mercados necessitam conversar entre si. Um colaborador que mantenha conversações, além dos muros da empresa, estará divulgando a empresa, estará recebendo feedback sobre a empresa, sobre os produtos ou serviços oferecidos. Novos clientes estarão sendo conquistados. Erros estarão sendo apontados.

As empresas precisam participar, ativamente, dessa era de convivencialidade, de conversações, de transparência, de diálogo com o mercado. Correm o sério risco de ficarem isoladas se os seus dirigentes não modificarem o modo pensar.

Convivencialidade, conversação entre mercados, voluntariado. Oops ! Eu disse voluntariado ?
É pessoal, foi justamente o que eu disse. Estamos no Ano Internacional do Voluntariado.

Mas o que tem o voluntariado a ver com convivencialidade e de que maneira se encaixa em uma empresa.
Tem toda ligação !

Se a empresa estimula o benchmarking, estimula que seus colaboradores sejam voluntários na cessão de conhecimentos para outros colaboradores e departamentos.

Se a empresa cria uma comissão de voluntários para prestar serviços à comunidade e à sociedade, a sua imagem passa a ser refletida por essa comunidade.

Mas será que não estamos esquecendo alguma coisa ?

Convivencialidade ... conversações ... voluntariado ....

Ah ! O lucro ! Esquecemos do lucro. Como ele entra nessa estória toda ?
Simples. O lucro financeiro é a conseqüência natural das empresas que sabem o que a convivencialidade pode fazer por elas.

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Focos geradores de algumas idéias dessa crônica.

Hernani Diamantas http://www.marketinghacker.com.br/

Carlos Nepomuceno (Nepo)http://www.pontonet.com.br/

Sérgio Buaiz http://www.buaiz.com/

Data de Publicação: 18/09/2001


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