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Como administrar uma pequena empresa de tecnologia no Brasil?
Carlos Nepomuceno
Como administrar uma pequena empresa de tecnologia no Brasil?
Carlos Nepomuceno, 42 anos, jornalista, é dono da sua própria empresa
Pontonet, desde 1996, com 130 projetos desenvolvidos na rede.
Podemos considera-lo um vitorioso?
"Bom, sete anos na Internet é muita coisa. Acho que continuarmos em pé, já
pode ser o sinal de um pequeno sucesso", comenta o consultor.
Ele administra uma equipe de cinco pessoas, que o ajudam a desenvolver
projetos estratégicos de websites, tanto na concepção, desenvolvimento e
manutenção.
Para um país de poucos empreendedores de sucesso e muitas mortes de
empresas prematuras, nos interessou principalmente nesta entrevista saber
que dicas ele pode dar para a geração que chega ao mercado e os que querem
se manter nele.
Na sua família havia empresários?
Por parte de mãe, meus tios sempre trabalharam em comércio, em pequenas
lojas e existia um certo clima empreendedor. Mas não tive nenhum modelo de
sucesso a seguir. Entretanto, minha mãe sempre me incentivava, por achar que
eu tinha perfil para a coisa. Eu sempre fui meio rebelde e transgressor ao
estabelecido: "Você só vai ser feliz se tiver o seu negócio".
Ela estava certa.
Você teve alguém como modelo?
Não, o que é uma coisa que me ressinto, fui procurar a experiência
necessária em livros e nos amigos que batiam cabeça como eu. Ter um padrinho
é algo que realmente faz falta.
Você teve algum curso na universidade de empreendedorismo?
Eu observo que a Universidade nos forma (ou formava) para sermos
empregados. Tudo que se aprendi já foi do lado de cá. É algo que está
mudando e precisa ser incentivado. Ser empresa é uma das alternativas, ou
deveria.
Quais na sua opinião são as características pessoais necessárias para
"tocar" uma empresa?
Acho que tem que ser organizado, disciplinado, cabeça fria para lidar com
as crises, ter objetivos amplos para sua vida pessoal, que devem ser
incorporados à maneira que você administra os negócios.
Como é que sua empresa começou?
Em 94, quando recusei uma ótima oferta salarial para coordenar um provedor
de acesso e resolvi montar meu negócio na área de internet. Foi algo
bastante impulsivo, se não fosse uma área tão nova e aquecida, teria entrado
para o índice de mortalidade empresarial.
Cometi todas as besteiras que tive direito, mas fui aprendendo e quando
estourou a bolha da Internet eu já estava escolado.
Já havia considerado a possibilidade de abrir um negócio como uma opção de
vida?
Não, quando saí da faculdade não era um sonho, mas aconteceu e eu assumi.
E hoje me sinto muito bem por aqui. Não quer dizer que se uma crise atacar o
mercado eu não tenha que ter outras opções. Estar aberto com as "velas
abertas" é fundamental.
Como você identifica oportunidades?
Contato com pessoas próximas, dicas e principalmente, conhecer quais são
realmente os seus talentos e oferece-los às pessoas certas. Quando se junta
talento com oportunidade, as coisas andam muito bem.
Como você apreende hoje? Tem um método próprio?
Sim, pensando muito a cada erro, discutindo e incorporando-os à
metodologia e lendo constantemente tudo que cai na mão sem preconceito.
Tem um sistema para a solução de problemas?
Sim, coloco em um "laboratório" e fico ali analisando, até que consiga
entender exatamente de onde veio. Geralmente sempre há três possibilidades:
ou é um erro humano, ou das ferramentas usadas ou da metodologia empregada,
ou um pouco de cada uma ou das três juntas. Daí em diante, é ajustar.
Recomendo um artigo que escrevi:
http://www.pontonet.com.br/todosartigos/191202jt.asp
Como lida com o fracasso?
É sempre um baque, um trabalho que temos que fazer com a auto-estima, mas
é necessário sempre planejar e colocar as possibilidades de fracasso dentro
do processo. Aí, ele é suavizado. Nenhum cliente é eterno, sempre temos que
trabalhar pensando: e se eu perder isso, e se isso acontecer. Ou seja, ser
um auto-advogado do diabo.
Qual é o seu trabalho na empresa?
Basicamente, o controle de qualidade, sugestões de melhorias no processo,
contato com os clientes, escolha da equipe e atuar mais intensamente quando
os problemas aparecem. E procurar abrir novos negócios.
Você se envolve com a rotina, com as operações do dia-a-dia?
Quase nunca. Fico no controle da qualidade. Mas quando é preciso, sempre
entro já pensando em quem vou colocar para dar continuidade e que método vou
utilizar para treinar a pessoa. Se você entra no dia-a-dia é o primeiro
sinal que a empresa vai mal, pois tem sempre alguém que tem que olhar o
horizonte e ter calma para entra de cabeça fria nas grandes crises.
Quantas pessoas que se reportam a você?
Uma apenas. O gerente dos projetos.
Você delega?
Sim, mas supervisiono sempre, tudo através de sistemas que me ajudam a não
me perder.
Você tem sócio?
Não, convidei um amigo no início, ele não topou. E aí caminhei sozinho.
Depois de um certo tempo, é muito difícil ter um.
Como é que você obtém informação sobre o que está acontecendo na empresa,
e como é que você controla as coisas?
Através do programa E-trabalho que desenvolvemos para trabalho a
distancia. (ver mais sobre ele em outra entrevista:
http://www.pontonet.com.br/entrevista.html).
Quantas horas você trabalha por dia? Sábado, domingo?
Em média oito horas, quase nunca nos fins de semana, raríssimo.
Você tira férias?
Sim, normalmente.
Você pensa em se aposentar?
Claro e já me preparo para isso.
Como você descreveria a si próprio como líder da sua companhia?
Acho que trabalho com sinceridade, respeito bastante os outros e procuro
levar a empresa como uma organização não-governamental, temos as nossas
metas de mudança social e oferecemos nosso serviço e produtos para que elas
aconteçam.
Você poderia explicar como sua equipe se desenvolveu?
Conversa.
Quais os métodos você desenvolveu para encorajar as pessoas a serem mais
criativas?
Desafios.
O que você diria que é diferente na maneira como você comanda seus
negócios?
Cada um na sua casa. Trabalhamos todos a distância.
Para onde você direciona seus esforços ao comandar a empresa?
Na obtenção e, principalmente, manutenção dos clientes.
Você vê as coisas de forma diferente, mudou seu estilo de gerenciamento,
desde que fundou sua empresa?
Claro, mudo a cada hora, diria. Quem disser que sabe tudo, pode começar a
fechar o "botequim". Você acumula para não errar na mesma coisa, mas os
cenários mudam e você aprende coisas novas sempre.
O que lhe dá mais satisfação ao comandar uma empresa?
Ver todo mundo ganhando o sustento com ela e os clientes satisfeitos.
O que você pensa sobre o poder como instrumento de comando?
Hoje estás no céu, amanhã no inferno. É ilusão. Trato bem todos, pois sei
que amanhã eu posso ter que fechar a empresa e trabalhar na empresa do meu
atual empregado e gostaria que ele me tratasse como foi tratado.
O que você acha do erro? Como trata os colaboradores que erram? A sua
empresa erra muito?
Temos erros novos, que se incorporam à metodologia. Diminuímos com o tempo
e prevemos erros futuros, sempre alterando maneira de atuar, pessoas e
ferramentas. Ou seja, queremos eliminar os erros antigos e evitar os novos,
mas quando eles vêm, não fugimos. Assumimos, apresentamos o diagnóstico para
o cliente, a solução e vamos embora. Ou seja, um trabalho constante de
aprimoramento. Quem não se dedica com paixão a analisar os erros, também
terá problemas. Essa é a função primordial do dono do negócio. E aí está a
diferença das empresas.
Quando uma pessoa erra constantemente, depois do treinamento e de muita
conversa, talvez haja um erro meu de querer que ela faça algo que não se
encaixa no perfil dela.
O que é que lhe dá mais prazer no processo de empreender? O que é que o
torna criativo?
Estar diante do mercado, sem nenhum intermediário. Exercer a minha
capacidade de me dar bem ou mal. O empregado sempre tem um patrão entre ele
e o mercado.
O quanto você diria que a imaginação é importante para o sucesso?
Acho que tem que aliar a imaginação ao pragmatismo, se não tudo dança. Ela
ajuda a construir cenários e ver oportunidades, mas "viajar na maionese" é
algo que tem que ser combatido.
O que é intuição para você? Qual a importância da intuição no seu negócio?
É importante, para começar uma análise de oportunidade, que deve ser
estudada com todos os dados, para não se entrar em canoa furada. Mas ela
está presente sempre, faz parte da vida, não só dos negócios.
Como você lida com a incerteza, ambigüidade?
Tudo tem que ser claro, se não é melhor partir para outro projeto. Ou
seja, sempre trabalho com sinal de pagamento, com contrato. Nada pode ficar
solto antes de começar o projeto, seja com o cliente, seja com a equipe.
Depois, Inês é mortinha e a confusão certa.
Qual o fator mais importante para o sucesso da sua empresa?
Estarmos em uma área com perspectiva de trabalho, fazendo o que gostamos e
acumulando experiência, passando o resultado dela para os clientes.
Quais são as principais potencialidades e fraquezas de sua empresa?
Potencial: experiência e maturidade
Fraqueza: as dificuldades normais de uma pequena empresa no Brasil.
E quais seriam os problemas de montar uma empresa no Brasil?
Burocracia, falta de crédito, de preparação dos empreendedores, impostos
sem retorno, custos altos para se contratar. Há que se mudar muita coisa.
Quais critérios você utiliza na seleção de pessoal?
Ter o perfil para a função que eu preciso, se for de manutenção, ser
calmo; Se for de criação, agitado.
Fale de seu sistema de gestão? Ele é baseado em alguma ideologia?
Sim, tudo é permitido dentro do bom senso sempre para deixar o cliente
satisfeito.
Você tem descrição escrita dos trabalhos e políticas da empresa?
Sim, desenvolvemos documentação. Eu atualizo constantemente, aviso a todos
que mudou determinada conduta e coloco o documento na rede para todos lerem.
Você estabelece metas?
Sim, não quantitativas, mas qualitativas.
Quais argumentos você utiliza para persuadir os clientes a comprar os seus
produtos?
Que ele vai economizar e conseguir chegar onde ele quer de forma mais
segura.
Como é a relação contratual com seus clientes?
Nosso contrato já vai na proposta de serviço. Eu posso ver o grau de
maturidade de uma empresa pelo contrato que mandam. Basicamente, tem que ter
o valor do serviço, as condições de pagamento, um detalhamento bastante
minucioso do que vai se fazer e todas as condições detalhadas que envolvem
aquela tarefa. Com tudo isso, discute-se tudo antes e não se discute depois.
Mas quando o contrato é mal feito, é certo que haverá problemas.
Que conselhos daria para os jovens empreendedores?
Bom, em primeiro lugar é preciso pé no chão, pé no chão, pé no chão.
Quando vejo o pessoal montando empresas, percebo que a euforia inicial e o
despreparo para lidar com a complexidade de tocar uma empresa fazem com que
gastemos além do que deveríamos.
É preciso, antes de tudo, se perguntar: tenho o perfil de um empreendedor?
Quero realmente viver toda a instabilidade que uma empresa me oferece,
principalmente, no início?
Sou capacitado para o mercado que quero atuar? Preciso de outros perfis
para complementar o meu? Um sócio? Quem é realmente de confiança?
O mercado em que quero atuar tem espaço para uma empresa como a minha?
Existem concorrentes? O que eu vou oferecer de diferente deles? Quem pode
ser o meu padrinho? Que amigos podem me ajudar a abrir negócios?
E talvez algo fundamental: você quer uma empresa para ter um salário no
final do mês. Ou quer ser um mega-empresário? A maioria quer montar a
segunda, mas já vai ter uma dificuldade enorme de chegar a primeira.
Ou seja, sonhar é bom, mas para se andar oito quilômetros, tem que
primeiro se andar os primeiros cem metros.
Aceito o desafio, qual seria a próxima etapa?
Caso tudo isso seja realmente bem respondido, entramos nos aspectos
práticos. Tenho recursos para começar o negócio? De quanto realmente
preciso? Preciso de tudo que as pessoas dizem que é importante para uma
empresa? Como reduzir ao máximo meus custos iniciais?
Se dentro desse processo, você pensar em pegar empréstimo de banco, com os
juros atuais, realmente ou você achou a mina de ouro ou será um devedor com
problemas futuros.
O exemplo da Amazon serve muito bem, tenho um artigo que fala do tema:
(http://www.pontonet.com.br/todosartigos/281200jt.asp).
Eles começaram em uma garagem, transformaram as portas e mesas e estão aí.
Não começaram como aqui no Brasil, com salas acarpetadas em andares
corridos.
Uma grande dica é evitar ao máximo abrir o escritório fora de casa. Quanto
menos tempo com custos fixos altos, melhor.
Mas quando não tem jeito é necessário o escritório?
Bom, eu tenho uma máxima aqui: custos fixos, receitas fixas. Receitas
variáveis, custos variáveis. Ou seja, se você fecha um projeto em que o
cliente fixou o preço do desenvolvimento do software, todo mundo que vai ser
contratado será também por um preço fixo.
Se você tem um contrato de manutenção, então, você aloca as pessoas
permanentemente naquele projeto. Terminou o projeto, você desfaz a equipe ou
realoca. O problema é você montar uma estrutura fixa e não ter a receita
fixa, aí começa o processo de fechamento do sonho.
Qual seria o recado final?
Acho que a tendência mundial é diminuir o emprego e aumentar as
oportunidades para as pequenas empresas, terceirizando serviços. Temos boas
oportunidades nesse sentindo, assim acho que todo profissional deve pensar
sempre nessa alternativa, estudar e ter condições de poder assumir a sua
própria empresa.
Mesmo que nunca a abra vai ser, certamente, um profissional mais
competente, mesmo sendo empregado, pois vai estar ligado a várias coisas que
estão na cabeça do dono, que é muito bom que esteja na cabeça de todos. Não
existe o paraíso, hoje temos uma rede global entrelaçada, um maremoto no
Japão, pode significar uma demissão no Brasil.
Data de Publicação: 19/05/2003
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