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Mario Persona é entrevistado por Tiago Baeta, do Serviços Grátis www.servicosgratis.com.br em Junho de 2000
Mario Persona
Tiago Baeta - Mário, hoje todo o mundo da internet está voltado para B2B (Business to Business) e E-commerce. A maioria acredita que isto será o futuro. O Brasil está preparado para uma evolução tão grande?
Mário Persona - Tecnologia é algo para o que nunca estamos preparados. Ela cai no nosso colo, e nós a adotamos porque ela resolve problemas. No século passado, o General Custer perdeu a batalha e a vida para um bando de índios que, comparado com os padrões da sociedade européia-americana da época, viviam na idade da pedra. Um quadro retrata a batalha. Soldados organizados, fardados, cheios de botões dourados, tocando corneta, montados em cavalos selados, abastecidos por carroções vindos de fortes seguros, lutando contra índios semi-nus, lutando de forma caótica e montados em cavalos sem sela.
O Brasil é considerado um país aquém dos padrões de primeiro mundo em muitos aspectos. Mas você encontra TV em cores, telefone celular e até antena parabólica em casas onde faltam condições mínimas de higiene e habitabilidade. É que o brasileiro descobriu nestas tecnologias vantagens que as tornam prioridade, e as adotou. O mesmo acontece com e-business. Meu palpite é que no momento em que os brasileiros descobrirem que é possível aumentar sua renda familiar usando a Internet, vão mergulhar de cabeça na rede.
É só as empresas que vendem produtos para sacoleiros e distribuidores informais começarem a fazer a troca de informações com esses distribuidores via Internet, e teremos uma verdadeira corrida para a rede.
Tiago Baeta - Com o surgimento da Internet e do comércio eletrônico, criou-se um pensamento de que qualquer um poderia ficar rico da noite para o dia. Qualquer pessoa poderia lançar um negócio virtual e se dar muito bem. Mas agora, esta fase "divertida" da Internet está acabando e vem mostrando uma nova realidade. Você acha que, no mundo virtual, assim como no real, só há lugar para os grandes?
Mário Persona - Em um mundo onde as redes de supermercado imperam, você encontra mercearias e vendedores ambulantes. O ambulante não desapareceu porque atende a um nicho de mercado. Vende a pipoca quente aproveitando a atração criada pelo jogo de futebol ou pelo parque de diversões. E nem pensa em competir com o supermercado, porque este não vai levar pipoca quente lá. Dentro da sua medida de valor, ele fatura o suficiente. Isto está acontecendo em várias medidas dentro da Internet. Com empresas pequenas e médias.
Temos um cliente que criou seu próprio site utilizando o sistema de loja eletrônica da Widesoft. É a www.videosonic.com.br. Ele já tinha seu negócio estabelecido no centro da cidade há onze anos, e decidiu colocá-lo na Internet há dois anos. Hoje, 80% de seu faturamento é gerado por sua loja virtual. Apenas 20% vem da loja de tijolos, mas isto não significa que dividiu sua receita. Ampliou. Provavelmente ele não pensa em competir com as grandes magazines e nem acredita que vá virar um milionário ponto-com da noite para o dia. Mas está vivendo muito bem com seu negócio, por alcançar um nicho que clientes que se identificam com seus preços, forma de pagamento, qualidade na entrega, etc.
Seu negócio não aparece na NASDAQ, ele não anuncia em páginas inteiras dos grandes jornais e revistas, e nem aparece na TV e em outdoors nas capitais. Mas, trabalhando duro, criou um negócio virtual que dá lucro. O que não acontece com muitas mega-lojas virtuais.
Tiago Baeta - Qual o lado positivo e negativo do e-commerce?
Mário Persona - O lado negativo é que muita gente está fazendo na Internet o que não teria coragem de fazer em uma loja convencional. Sites péssimos, atendimento pior, segurança zero. Tudo isso cria uma imagem ruim do comércio eletrônico. Por estar vivendo sua fase de corrida ao ouro, o ambiente virtual acaba passando a impressão daquelas cidades do velho oeste, sem lei, sem ordem, cheias de vigaristas e problemas.
Por outro lado, isto é também uma oportunidade para pequenos e médios que forem criativos no atendimento e na personalização, e competitivos no preço e na entrega. Este é o lado positivo, gente competente ocupando as brechas que os incompetentes deixarão pela seleção natural. Quando a poeira assentar teremos uma visão mais clara do comércio na rede. .
Tiago Baeta - O Boo.com quebrou e há uma previsão de que este é apenas o início de uma avalanche. O que você acha dessas previsões?
Mário Persona - Muita gente vai quebrar, mas isso não abalará o crescimento do e-commerce. Apenas limpará a área para a competência. Quando passar a febre e o desespero de se jogar todas as fichas em propaganda, e nenhuma ficha com estrutura, logística e atendimento, teremos mais empresas sólidas na rede. Grandes, médias e pequenas. Supermercados, mercearias e ambulantes de Internet, cada um ganhando o seu e perfeitamente dentro de sua escala de valor.
Tiago Baeta - O Brasil já está entre os maiores mercados de comércio eletrônico do mundo e seu crescimento tem sido cada vez mais rápido. Até quando você acha que irá se expandir? ?
Mário Persona - Europa é um mercado maduro. Se os italianos comerem mais macarrão, ou os alemães mais salsichas, estouram. Não vão comer. Nasce pouca gente lá. O mercado dos países desenvolvidos é estável demais. O Brasil tem um mercado verde e crescendo. Muita gente ainda não tem o que gostaria de ter, e é por isso que grandes empresas estão vindo para cá. Aqui o mercado eletrônico irá crescer a um ritmo maior que em outros países mais desenvolvidos, porque há lacunas a serem preenchidas. Na Europa o mercado convencional terá que dividir o bolo com o eletrônico. No Brasil o bolo vai ganhar novas fatias, aumentando e não dividindo.
Tiago Baeta - Você acha que sites iniciantes de serviços e conteúdo como existem aos montes, ainda vão ter chance no futuro ?
Mário Persona - Depende muito do que farão para atrair. Serviços sim, se utilizarem o conceito ASP (Application Service Provider) corretamente. Refiro-me a serviços que pessoas e empresas poderão terceirizar para um provedor virtual. Não apenas coisas como agendas ou e-mail grátis. Mas esta não é uma área para pequenos, já que exige estrutura.
A Widesoft tem um sistema de planejamento avançado da produção que funciona no conceito ASP e é utilizado por meia dúzia de indústrias via Web. Que eu saiba, é a única empresa no Brasil com um sistema assim todo virtual. Esse tipo de coisa não aparece na TV porque envolve produção de autopeças e coisas do tipo. Mas aí está o futuro. Serviços terceirizados e distribuídos via Web. Enquanto somos bombardeados com notícias de portais, e-commerce, sites disto e sites daquilo, a Internet está funcionando a todo vapor sob a superfície com sistemas como o WidePlan ou o WideLog, que ajuda na gestão da cadeia de suprimentos das empresas. É o business to business que causa o maior movimento de valor dentro da rede, mas que não gosta de aparecer.
Já sites de conteúdo ficarão por conta das grandes agências de notícias, meia dúzia talvez, e principalmente aquelas que enxergarem que notícia quente hoje é aquela que mexe no bolso das pessoas. Como cada vez mais as velhinhas investidoras estarão apostando na bolsa via rede. Esta tendência está aumentando à medida que elas vão descobrindo que isso é como um bingo, só que mais seguro e sem o risco do reumatismo em dias de chuva. Conectadas, elas vão querer saber se aquele golpe naquela república de bananas irá ter influência no investimento que fizeram. Informação 24 horas, com sabor econômico é o que deve reinar na rede.
Outro tipo de conteúdo é o de nicho. Alguém cria minhocas e atrai para o seu site outros criadores, dando informação de boa qualidade, criando fóruns de debate e tudo o que possa interessar para quem tem minhocas na cabeça. Mas mesmo assim o mais difícil é fazer a coisa acontecer. É complicado você criar um site lindo e tentar criar uma comunidade em torno dele. O inverso é mais interessante.
Tiago Baeta - Há lugar para mais portais no Brasil?
Mário Persona - Acho que o termo "portal" é usado de forma errada. Um portal deveria prover acesso a algo, em geral um outro site. É assim que entendo. O Yahoo! faz isso. Portal que provê acesso para o umbigo é apenas mais um site de conteúdo. Se o conteúdo e serviços forem diversificados, vai precisar de uma estrutura gigante para manter isso para manter o visitante em seus braços.
Tiago Baeta - Mário, todos sabem que você é realmente um expert neste assunto. Você pretende lançar um livro com seu conhecimento ?
Mário Persona - Se idade contar, estou mais para ex-pert do que para expert. Mas isto ainda não é tão ruim quanto a forma como meu pai costumava chamar os carros velhos: "ex-carro".
Em relação a livros, estou mais ou menos na mesma condição daquela conversa:
"Quando me aposentar vou poder terminar meu livro."
"Você está escrevendo um?"
"Não, estou lendo." :)
Já pensei em juntar minhas crônicas em um livro, ou escrever algo mais direcionado a um tema, mas o problema é tempo. Teria que correr atrás de alguma editora para cuidar do operacional e da distribuição. Trabalhei dez anos na área editorial, cuidando desde a tradução até distribuição, e conheço a complexidade da coisa. Se aparecer alguma editora interessada, podemos conversar. .
Tiago Baeta - Bom, foi um prazer esta entrevista. Obrigado !
Mário Persona - Ok, Tiago. Fica aqui um grande abraço para o pessoALL que me suportou até aqui. :)
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