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Inseminação Educacional
Mario Persona
Sou um privilegiado, um inseminador de idéias, construtor de caracteres,
criador de borboletas. Sou um professor. Um dia ainda será minha única
atividade, já que a considero a mais importante. Enquanto a influência de um
consultor dura apenas o momento de gravidade de uma empresa, a do educador
dura uma vida e vai além. Engravida mentes.
Ser consultor, palestrante e escritor também envolve ensinar e até dá mais
dinheiro e prestígio, mas nenhuma dessas atividades permite sussurrar tão
próximo do cérebro e coração de quem deseja voar, nenhuma permite acompanhar
a transformação da crisálida em borboleta.
Já ensinei muita coisa diferente para muita gente. Crianças na escola
dominical, adolescentes na escola rural, meus filhos na escola do lar e
pessoas com mais títulos do que eu em palestras, faculdades e cursos de
pós-graduação. Não há dinheiro que pague - e geralmente o salário do
professor não paga mesmo - o prazer de fazer diferença na vida de grandes e
pequenas personas.
A qualidade na educação começa com qualidade no educador, que precisa
gostar de aprender e ter ganas de ensinar, talento e vocação. Conheço
excelentes educadores que saíram de péssimas escolas, e doutores que sabem
menos do que uma bactéria, criados por grandes instituições. Como explicar?
Mais importante do que a escola que cursaram é o que são capazes de fazer
com o que aprenderam.
Quando adolescente fiz um curso de desenho artístico por correspondência,
dessas escolas que anunciam em gibi. Ao revelar isso, corro o risco de
receber uma saraivada de fogo e enxofre vinda dos deuses da educação que se
assentam no Olimpo do conhecimento acadêmico de pedigree. Sim, aprendi muito
com aquela escola. E também com gibis.
Fiz o curso, mas fiquei sem o canudo por não me preocupar em enviar os
últimos exercícios. Não estava interessado no certificado, mas no
aprendizado. Continuei a seguir a paixão que aquele curso despertou por sua
sedução e transformei a arte em profissão.
Fui desenhista, cartunista, pintei perspectivas de edifícios, transpirei a
criatividade que só é gerada pelo calor de uma paixão. Virei arquiteto, mas
foi só graças ao vestibular de uma pequena faculdade de interior. De lá me
transferi para Santos, onde terminei o curso pescando nas pedras do Morro do
Maluf no Guarujá, convenientemente instalado no apartamento de veraneio de
meu pai.
Nunca precisei consultar um analista por algum trauma causado por essa
minha humilde origem acadêmica. Dou graças a Deus pelos professores que
estimularam minha capacidade natural de pensar e não reprimiram meu desejo
marginal de aprender. Sem isso eu teria parado de aprender no último dia de
aula. Mas não parei.
Essa origem acadêmica humilde costuma gerar algum frisson naqueles com
canudos mais avantajados, turbinados por uma formação cinco estrelas.
Infelizmente alguns desses nada fazem pela qualidade do ensino além de
pulverizar, com seu veneno crítico, o governo, o ensino e as faculdades
daninhas. Enquanto permanecem estéreis, protegidos numa redoma acadêmica de
cristal e tomando um chopp em taça do mesmo material.
Fico pensando no que aconteceria se essas pessoas violentassem o ensino,
imiscuindo seus estames por entre os pistilos das faculdades menores,
fertilizando seus alunos com o melhor pólen do saber. Seriam sedutores
educacionais, empenhados no assédio dos mesmos alunos que eles acreditam
viver hoje privados dos prazeres fecundos de uma sapiência de qualidade.
Recebi um e-mail de uma ex-aluna de um curso noturno que atualmente
administra um hospital. Comove-me pensar que ela sinta alguma gratidão por
aprender algo de alguém que não tem nem metade da capacidade e qualidade
pedagógica de profissionais formados por grandes instituições. Se aprendeu
algo de mim, o quanto não aprenderia com os grandes mestres?
Pense no que aconteceria se esses bem-dotados educadores inseminassem seus
genes de qualidade nas faculdades mais carentes, causando uma transgenia
nessas que são hoje o maior reduto de pessoas desesperadas por qualificação
para o mercado de trabalho. Gente que só estuda à noite, abrindo só um olho
vermelho de cada vez porque precisa trabalhar de dia para o orçamento
familiar não ficar da mesma cor.
Seria uma revolução. Mas daria trabalho, sem falar na perda de status.
Como iriam os melhores espécimes acadêmicos esconder algo assim em seus
imaculados currículos? Como suportar o vexame, se os outros deuses
descobrissem que eles andaram seduzindo mentes de mortais instituições fora
do Olimpo da educação, coabitando com aqueles que não conseguiram passar em
um grande vestibular? Certamente fariam uma grande diferença na vida dos
alunos, mas será que é isso que buscam?
Essa promíscua miscigenação no ensino geraria uma nova estirpe de
profissionais, estudantes que não tiveram tempo, dinheiro ou oportunidade de
estudar nas melhores instituições. Sim, é preciso tudo isso para um curso
que exija dedicação integral. Eu mesmo faço parte de uma minoria
privilegiada, já que tive um pai que sustentava meus estudos, meu carro e
meu veraneio perene nas praias do Guarujá.
Tive recursos, mas não inteligência ou força de vontade para passar no
vestibular de uma grande instituição. Se dependesse da meia dúzia de
universidades de renome, eu nem graduado seria. Teria empacado no mata-burro
de um vestibular que estava além da minha capacidade intelectual. Como quase
aconteceu com meu amigo.
Ele não passou num vestibular decente porque não era inteligente o
suficiente. Pelo menos segundo os padrões das provas. Por obra e graça de
uma lista de espera, acabou numa faculdade do interior e só foi deslanchar
no exterior, porque seu cérebro não cabia aqui. Hoje é um dos maiores
especialistas do mundo em sua área, com recordes de mestrados e doutorados
para sua idade.
Tão grande foi sua ascensão acadêmica por lá que no último título
conquistado, o reitor cochichou em seu ouvido: "Gostaria de ter o prazer de
lhe proporcionar uma homenagem íntima para a entrega desse título".
Sabe como é, o reitor queria evitar uma cerimônia pública, preocupado com
os melindres dos outros doutores de lá, que só alcançaram o patamar de meu
jovem amigo depois de ganharem cabelos brancos ou perdê-los. Meu amigo
aceitou o título, mas não a homenagem. "Homenagem íntima eu prefiro a de
minha esposa", respondeu educadamente ao reitor.
Data de Publicação: 28/10/2003
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