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"Hello, Houston... ready for going home!"
Mario Persona
No estande de nossa escola o clima era de desolação. Competição desleal,
desigual, do outro mundo. Ninguém ligava para as toscas experiências de
alguns alunos, quando podia encher os olhos com a atração da feira e da
época: a pedra da Lua, trazida pelos astronautas da Apollo na volta para
casa.
Era o início da década de setenta e estávamos numa feira científica e
industrial em minha cidade. Com a euforia causada pela conquista da Lua,
nossos tubos de ensaio e experiências elétricas com lâmpadas e pilhas de
lanterna não eram páreo para a pedrinha negra, resultado de bilhões de
dólares gastos com a corrida espacial.
A enorme fila de curiosos se refletia no vidro à prova de balas que
protegia a pedra, cercada por policiais fortemente armados. Com tanto
dinheiro, organização e poder envolvidos, quem iria se interessar pelas
soluções caseiras de meia dúzia de alunos de uma escola do interior?
A idéia de que o caseiro é sinônimo de inferior sempre esteve arraigada em
nossa mente. Isso mudou quando passamos a buscar por exclusividade, saúde e
qualidade de vida. Aí o "feito a mão", a "comida caseira" ou a "pamonha
fresquinha de Piracicaba, feita com o puro leite do milho" viraram slogans
de confiança.
Mas a desconfiança ainda existe quando o assunto é serviço profissional.
Uma amiga, arquiteta, se queixa de oportunidades perdidas quando os clientes
descobrem que seu escritório é em casa. Um amigo, consultor, acha que
perderá seus clientes, se fechar a sala comercial que vive fechada e nunca
recebeu ninguém. Será preconceito?
Quando produtividade, otimização de recursos e qualidade de vida passaram
a fazer parte do vocabulário empresarial, muitos passaram a enxergar o
teletrabalho como uma opção inteligente. É claro que há profissões que não
podem ser exercidas no lar. Carcereiro, por exemplo.
De um modo ou de outro, hoje todo mundo já faz ao menos parte de seu
trabalho em casa, quando leva algum relatório para ler ou uma proposta para
digitar. Com o e-mail, até esse leva-e-traz empresa-casa-empresa ficou
virtual. É o tele do trabalho.
O home-office ganha prestígio na mente de pessoas e empresas que descobrem
que é uma alternativa inteligente - dá resultados com um gasto menor de
tempo e dinheiro. Nos Estados Unidos e Europa a prática é prestigiada e
bastante difundida. Por aqui, o noticiário tem se ocupado mais com o
jail-office, a modalidade de home-office que permite controlar toda uma
organização a partir de uma cela comum.
Quando passei a me dedicar ao meu próprio negócio de consultoria,
palestras e treinamentos a primeira providência foi alugar um escritório.
Mas continuei trabalhando em casa e alguns meses depois ainda não tinha
arranjado nem o tempo e nem a vontade para mudar. Paguei a multa na
imobiliária, devolvi as chaves do imóvel e continuei em meu bem montado
home-office.
Para quem viaja, não faz muita diferença. Com meu notebook, celular e
Internet, transformo o quarto de hotel em escritório. Os clientes chegam via
Internet e se comunicam por e-mail ou por telefone, cujo atendimento é
terceirizado e minha secretária me encontra onde quer que eu esteja. Não
importa onde eu esteja, trabalho sempre na sala virtual ao lado.
É claro que algumas pessoas continuarão avaliando o profissional e seus
serviços mais pelo montante investido em instalações do que pela capacidade
craniana de suas ações. Geralmente são pessoas resistentes às inovações, que
ainda enviam e-mail por fax. Ou pensam que trabalhar em casa é só para quem
está mais apertado do que São Jorge em lua minguante.
Mas, o que diferencia um negócio hoje - principalmente serviços
profissionais - é a inteligência e a criatividade, que conseguem otimizar
processos e fazer aquilo que a sabedoria popular diz da farinha de mandioca,
campeã do Fome Zero:
"Esfria o quente, aumenta o pouco,
Engana a fome da gente e enche a barriga do caboclo"
E foi com inteligência e criatividade que os alunos roubaram a atenção do
público, deixando a pedra lunar em segundo lugar. Do lado de fora da
exposição, trabalhadores abriam um buraco na rua pavimentada de velhos
paralelepípedos, quando um aluno tropeçou na pedra solta de uma idéia
genial.
Ele correu de volta para o estande levando o paralelepípedo que foi logo
colocado dentro de uma grande caixa de papelão. Revestida de papel alumínio,
e apenas com um furo do tamanho de uma moeda, aquela se transformou na
atração principal do recinto. A fila para espiar pelo buraquinho ultrapassou
a fila da pedra da Lua.
Quem olhava pelo orifício via apenas um grande paralelepípedo iluminado
por uma luz verde, mas saía satisfeito e rindo. O segredo do sucesso ficava
por conta do cartaz colocado sobre a caixa, que dizia em letras trêmulas:
"PEDLA DA LUA DO CEBOLINHA".
Data de Publicação: 28/07/2003
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