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Mais Internet que arroz e feijão
Israel Mor
Extra! Extra! Uma pesquisa de orçamentos familiares realizada pela Fundação Getúlio Vargas revelou que de cada R$ 100 de renda, o brasileiro compromete em média R$ 1,30 com arroz e feijão, enquanto que com Internet, celular e tv a cabo gasta em média R$ 2,77. Mesmo tendo explicações simples, este resultado é um tanto quanto inusitado.
Em primeiro lugar, a palavra média já é algo complicado. Neste caso específico, provavelmente pouca gente tem acesso à (muita) tecnologia, enquanto grande parte da população sobrevive com pouco arroz e feijão. Ou pior, quem acessa a Internet, possui tv a cabo e fala ao celular não tem a combinação de arroz e feijão como sua principal fonte de alimentação. Além disso, os custos são totalmente diferentes. Para quem não se lembra, uma das maiores propagandas do início do Plano Real era o pacote de um kilo de feijão a R$ 1,00. Se estimarmos que hoje, somando a inflação, o mesmo produto pode ser comprado a R$ 2,50, ainda assim notaremos a disparidade de valores em relação aos gastos com alta tecnologia.
Com R$ 2,50 só dá para pensar em acessar a Internet em um Cybercafé, e ainda assim rapidamente. Para começar a pensar em acessar a rede na sua casa, é preciso possuir um computador, cujo preço gira em torno dos R$ 1500, e um telefone com conta mensal. Falar ao celular ou assistir tv a cabo, então, já implica em uma grande economia mensal. Um aparelho celular dos mais simples custa R$ 199, fora os cartões pré-pagos, a forma mais barata de manter a linha. Canais de televisão pagos nem se fala.
Nem é preciso discutir aqui a miséria de grande parte da população brasileira. Só a criação de um programa como o Fome Zero já indica o que está acontecendo em nosso país. Então devo deixar de acessar a Internet para comer? Claro que não, pois, com certeza, se você está lendo este texto não deve faltar comida em sua mesa. Deixando de lado os problemas de pobreza e falta de alimentação, somos obrigados a ver que a exclusão digital elimina muitas das possibilidades de desenvolvimento do país, como a facilitação do acesso à educação e à informação num Brasil com taxas de analfabetismo altíssimas e a maior qualificação pessoal e profissional.
Muitas empresas já perceberam que os maiores lucros estão em equipamentos e negócios desenvolvidos para as classes C e D da população e estão criando produtos adequados às necessidades e possibilidades financeiras destas pessoas. Acesso público à Internet, planos de canais para TV a cabo mais baratos e descontos em ligações são soluções que vem obtendo resultado, mas ainda assim são insuficientes frente às necessidades da população. Infelizmente, o buraco é um pouco mais embaixo.
Já está mais do que provado que a tecnologia é necessária, mas só trará resultados eficientes e duradouros quando for garantido o acesso à infra-estrutura básica, que inclui moradia, saúde e alimentação, permitindo ao indivíduo a concentração necessária para que possa tirar proveito de tanto avanço, seja procurando emprego na Internet ou mesmo assistindo um documentário no Discovery Channel.
De bom, fica aqui pelo menos a lição de que nós estamos sim interessados em novas tecnologias e facilidades para nosso dia-a-dia. Ficar fora deste processo é loucura numa época de negócios globais e sem fronteiras, os quais permitem até que o país gere receita para combater, por exemplo, a falta de comida. Parafraseando a propaganda do próprio Fome Zero, que ilustra bem o que pode ser feito no combate à fome no país, é "o Brasil que acessa ajudando o Brasil que está excluído".
Data de Publicação: 08/04/2004
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