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Planejamento Estratégico e o desafio da volta ao mundo com Gérard Moss
Fernanda Do Coutto S. Riberti
Gérard Moss decolou do Rio de Janeiro no dia 20 de junho para realizar o Projeto Asas do Vento. Dar a volta ao mundo em um motoplanador e abraçar a cada dia novos desafios: condições meteorológicas exigem uma avaliação de risco, dificuldades burocráticas pedem capacidade de negociação e análise de informação. Ingredientes imprescindíveis são habilidade técnica e boa resistência física. A empreitada seguiu metodicamente para os pontos definidos, conseguindo manter contato diário via satélite, a comunicabilidade sendo um eixo essencial na realização do projeto e sua divulgação. Imprevistos constantemente foram enfrentados e vencidos. Uma ambiciosa pesquisa científica de poluentes na baixa atmosfera procurou gerar um modelo matemático através do mapeamento dos dados coletados. O Projeto Asas do Vento mostrou que o planejamento minucioso permite uma adequação à realidade de cada dia, realizando o seu compromisso no tempo determinado.
O planejamento estratégico do projeto consiste na avaliação do ambiente onde o desafio será realizado, na definição da sua missão, na quantificação das metas em relação ao tempo previsto, tudo convergindo para um objetivo único de alcançar sua realização.
Motivação, vontade de realização, decisões rápidas, avaliação de riscos enfim, todas as estratégias de sustentação exigem da capacidade de optar ou não pela continuidade. Temos as informações, mas somente motivados pela necessidade de realizar, somos levados ao compromisso com o resultado final.
Gérard Moss é aviador-empresário, formado em engenharia mecânica, desafiou o mundo em um pequeno motoplanador e trouxe para o Brasil um recorde aeronáutico. O sucesso foi resultado de um projeto extremamente bem elaborado, com o planejamento minucioso exigido pela aviação, permitindo uma adequação à realidade de cada dia e realizando o seu compromisso no tempo determinado. Seu diário de bordo está à disponibilidade na internet em http://www.asasdovento.com.br
Vamos conhecer um pouco mais do trabalho de Moss e perceber o quanto o Planejamento Estratégico é importante no mundo dos negócios.
Fernanda Do Coutto S. Riberti - IMPRENSA Web!: Qual o maior desafio na realização de um Planejamento Estratégico?
Gérard Moss - Projeto Asas do Vento: Atingir o objetivo proposto, justamente adequando o Planejamento Estratégico, quando necessário, para que seja possivel atingir o dito objetivo.
IW: Quais são os riscos mais comuns num Planejamento Estratégico?
GM: Passar horas fazendo o PE e não cumprir as metas. As vezes, devido a variáveis externos, é necessario refazer as metas mas não pode perder de vista o objetivo final.
IW: Como um PE possibilita as empresas na redução de seus riscos?
GM: Como dizem em ingles, "Forwarned is forearmed". Antecipando os riscos, você se prepara para confrontá-los. Você reduz os riscos com preparação, com conhecimento, com planejamento, com informação. Atravessar o oceano Atlântico num motoplanador, voando 2300 km confiando apenas num pequeno motor, pode ser visto como um tremendo risco. O PE é essencial para que a travessia seja bem sucedida. Verificando se há estoque de gasolina suficiente na ponta da partida (ilhas Cabo Verde). Checando e rechecando o motor. Checando e rechecando a meteorologia. Quase decolei no dia 22 de setembro para fazer a travessia mas na última hora, não gostei da meteorologia e adiei por um dia, esperando uma melhoria. Os riscos tem que ser reduzidos, é uma questão de lógica e de sobrevivência.
IW: O que te levou a criar o Projeto Asas do Vento?
GM: A visão era, principalmente, o desafio aeronáutico - nunca ninguém havia realizado uma volta ao mundo em um motoplanador porque a aeronave não foi projetado para isso. Provei ao mundo que é possivel sim e que o Ximango é resistente. Mas não quis fazer apenas um recorde aeronáutico. Fiquei atraído pela possibilidade de usar essa viagem para realizar uma pesquisa ambiental inédita sobre poluição atmosférica e de transmitir de volta para o Brasil as imagens que ia filmar durante a viagem. Isso também foi inédito. Mantendo comunicação em tempo real durante o projeto.
IW: Como você adapta o projeto Asas do Vento ao mundo dos negócios?
GM: Este projeto e um exercício vivo de planejamento estrategico. Para poder explicar, estabelecemos o conceito de: Planejado para 100 dias, Realizado em 100 dias. Ou seja, o objetivo foi cumprido. Na palestra mencionamos as adversidades que passamos e como conseguimos administrá-las e superá-las. Tem vários elementos em comum entre um projeto de aventura e um projeto empresarial que são importantes para o sucesso dos mesmos. O motoplanador é um símbolo de simplicidade e eficiência. Tem asas longas que aproveitam das correntezas da Natureza e usa pouco combustível. Mas não é um avião fácil de pilotar, então experiência, capacidade e sangue frio são fatores valiosos no comando da aeronave, como seria o caso de um diretor no comando de sua empresa. Dentro do cockpit, passando longas horas em vôo, boa forma fisica também era importante. Mas ninguém vence sozinho. Nos bastidores, o trabalho da equipe foi essencial ao bom desempenho - tanto à realizacao do objetivo como à obtenção dos resultados prometidos às empresas que financiaram o projeto.
IW: Asas do Vento foi seu primeiro Projeto?
GM: Não, ja realizei com minha esposa Margi uma longa volta ao mundo durante quase 3 anos e o projeto Extremos das Americas - http://www.extremoss.com.br , ambos viajando em um monomotor Sertanejo, também de fabricação brasileira. Experiência é um fator muito importante. Dá credibilidade quando você chega diante das empresas patrocinadoras e parceiros. Não precisam perguntar: quem é esse cara? será que ele vai mesmo?
IW: Que outros projetos você tem em mente no futuro?
GM:Tenho algumas idéias em mente, algumas meio mirabolantes, mas nossos desafios na vida tem que ser sempre maiores. Vamos dizer que minhas idéias incluem um hidroavião e um vôo à Antártida, onde ja estive em um monomotor Cessna Caravan em 2000.
IW: Você acredita que a sua experiência na aviação contribuiu de forma positiva na adequação de seu PE?
GM: Sim, sem dúvida. Lembremos que na aviação em geral e especialmente em termos internacionais, o planejamento já é imprescindivel. Você tem que ter todas as permissões de sobrevoo e pouso em ordem. Não pode "invadir" o espaço aéreo de um país (e veja bem, os paises asiaticos e africanos são muito zelosos de seu espaço aéreo) sem a papelada em dia. Há sério risco de ser interceptado por caças, como aconteceu comigo no Japão. A experiência aeronautica é tão valioso naquelas regiões quanto a preparacao burocratica. Sem essa parte, poderia ficar detido vários dias até resolver a situação e não conseguiria atingir meu objetivo no tempo previsto.
IW: Qual o melhor conceito de um Planejamento Estratégico?
GM: Estabelecer a Visão, as Metas e o Objetivo de um projeto. A estratégia tem que ser flexivel a ponto de trocar de proa sem deixar de alcancar seu objetivo. A limitação do vôo visual do Ximango é um belo exemplo disso. De frente para uma grande massa de nuvens, tenho que contorná-la, variar minha altitude e fazer mil manobras para chegar ao aeroporto de destino.
IW: Você tem disseminando o Planejamento Estratégico em palestras para novos e já conhecidos empreendedores. Qual o ponto mais promissor neste trabalho?
GM: Quem assiste à palestra pode ver a aplicação direta do PE num projeto palpáavel e já realizado com sucesso. Pode perceber a importância de uma variedade de fatores cruciais: organização, trabalho em equipe, o conceito de "fazer mais por menos", superar desafios e dificuldades dia-a-dia, comunicabilidade, interpretação de normas e regras internacionais, adequacao à realidade, aplicação de conhecimento e gestão das informaçõis disponiveis.
IW: Qual o futuro de um PE?
GM: Para mim, é pé no chao. O PE tem que ser realista e flexivel. Tem que incorporar espaço para acontecimentos colaterais. Dito isso, teria sido impossivel prever a tragédia do dia 11 de setembro. Se eu estivesse nos EUA naquele momento, poderia ter ficado proibido a voar durante quase 2 meses, conforme aconteceu com muitas aeronaves leves americanas. Isso teria acabado com minhas metas!
IW:Que bibliografia você indicaria para quem quer iniciar um planejamento?
GM: No caso do meu projeto, você pode ver o paralelo entre o mundo dos negócios e um projeto de aventura onde o planejamento foi um elemento essencial, imprescindivel a sua realização. Minha "bibliografia" é completamente direccionada ao meu objetivo: inclui muitos mapas e informações aeronáuticas, pois é disso que depende meu projeto. Tenho que saber com certeza quais aeoportos que possuem combustivel AVGAS (o que nao é evidente). A biliografia do PE você deve achar de acordo com o seu tema. Aprofundar as informações, seja por Internet, livros, conversas, mas acima de tudo, procurar obter informacoes relevantes ao seu objetivo.
IW: Além do seu, quais são seus sites favoritos?
GM: Um site maravilhoso da NASA com imagens satélite do mundo atualizados a cada meia hora. Você pode fazer um zoom sobre a area que interessa e ver até a tendência de formações de nuvens cúmulo-nimbus. Justamente essas que sao perigosas para a aviação leve.
IW: Que plano estratégico você viabilizou para financiar o seu projeto?
GM: Quando visito as empresas em busca de patrocinio, ofereço várias maneiras de participação, com valores diferentes. Nessas horas, a credibilidade vale ouro. Apresento o meu histórico de trabalhos/viagens anteriores. Procuro mostrar ganchos no meu projeto que possam interessar a tal empresa. O projeto Asas do Vento mostra perfeitamente como isso funciona. A Embratel se interessou porque as telecomunicacoes formaram um elo vital no sucesso do projeto, com transmissões ao vivo para a televisão. A Victorinox, que já patrocinou outras viagens nossas, é muito ligada ao mundo de aventuras pelo uso prático de seus produtos outdoor. O canivete suiço é algo que carrego comigo desde a infância. Grupo Aeromot entrou com a aeronave - peça essencial à realizacao do projeto! - e foi uma divulgaçao mundial sem par para o Ximango. Banco Santos é uma empresa muito ligada a projetos de meio ambiente, e se interessou especialmente pelas pesquisas de poluiçao atmosférica.
IW: Que conselho você daria para os novos empreendedores?
GM: Você deve saber onde quer chegar e ter certeza de que é um objetivo alcançavel. Para chegar la, planejar usando seus conhecimentos e procure conselhos de outros quando você nao sabe. Tenha flexibilidade e determinação.
IW: Qual foi seu maior desafio em Planejando para 100 dias e executado em 100 dias?
GM: As 100 metas diárias. Vencer cada uma significa 1% do projeto realizado. No meu projeto, por exemplo, a Meteorologia faz parte das variáveis incontroláveis. Uma vez na Birmânia, decolei, voei 2 horas e tive que voltar ao ponto de origem. Não consegui passar pelo mau tempo. No dia seguinte, resolvi nao pousar em Bangladesh, como previsto, e seguir diretamente para a India, assim recuperando o dia perdido.
IW: Você acredita que o mercado de trabalho está preparado para consultores em Planejamento Estratégico?
GM: Sim, e a apresentação do Projeto Asas do Vento e uma forma de mostrar , a vivo e em cores, a aplicação prática da importância do PE. Vamos a outro exemplo. Sabia que seria dificil de obter a permissao de entrar na Rússia, algo critico para a realização da volta ao mundo. Em vez de ficar no Rio de Janeiro mandando fax ou fazendo inúmeros telefonemas, fui a Moscou. Fui conhecer pessoalmente as pessoas que concedem as permissões. E eles ficaram me conhecendo, sabendo que o vôo estava tudo planejado com seriedade e que eu nao ia causar problemas para eles na Sibéria conforme ja acontecera com outros pilotos estangeiros.
IW: Existe alguma fórmula de sucesso?
GM: Trabalho, dedicaçãoo, ousadia, credibilidade, determinacao, compromiso com o resultado e um pingo de sorte!
IW:Quais são seus principais parceiros?
GM: No projeto Asas do Vento, eram Embratel, Victorinox, Banco Santos e o Grupo Aeromot e as demais empresas que apoiaram o projeto. A minha esposa Margi na retaguarda. Sem ela não seria possivel esta viagem. Ela foi a responsável por coordenar a equipe de terra, obtendo as permissões aeronáuticas e transmitindo informações vitais para que eu pudesse cumprir meu objetivo.
IW: Qual a melhor forma de contactá-lo?
GM: Pode ligar para meu escritorio no 0xx21 2542 8453 ou para Ana Abreu, coordenadora das palestras, no 0xx21.2247 7698 ou 0xx219965 0399, ou através do site http://www.asasdovento.com.br
Data de Publicação: 21/12/2001
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