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A Surpreendente Vantagem de se Trocar o Certo pelo Duvidoso
Eduardo Wyllie
Já em 1988, Peter Drucker sugeria que o tipo ideal de gerenciamento seria o colegiado, como uma orquestra sinfônica ou uma equipe de médicos. Cada integrante deveria conhecer e decidir em sua área específica com maior poder que o próprio líder. O maestro ou o chefe da junta médica trataria basicamente de harmonizar os esforços individuais de forma a imprimir uma determinada direção ao trabalho.
Poderíamos discorrer sobre como a Internet combina com tarefas em colegiado, dando plena autonomia às partes e podendo coordenar-se através de uma autoridade central. Porém, há um fato bem menos mencionado que merece considerações: o surgimento de dúvidas que surgem pari passu o avanço da medicina.
Por que tomar como referência os costumes de uma classe que multiplica suas dúvidas?
Um copo de vinho faz bem ao coração? Saliva contaminada transmite AIDS? A ingestão de ovo de galinha afeta os índices de colesterol?
De fato, não há respostas definitivas para diversas questões na ciência médica. Mas, acredite se quiser, isto é um bom sinal.
Todos que lidam com a teoria do uso comercial da Internet já leram em algum lugar que pesquisar na Rede é como tentar beber água numa mangueira de incêndio. E é justamente o "excesso" de informações que leva às dúvidas. Enquanto estudos apontam numa direção, outros podem indicar conclusões opostas.
Congressos, seminários e trabalhos cooperativos, com troca freqüente de membros entre equipes do Brasil e do exterior são formas de comunicação cujo sucesso é mais que comprovado pela comunidade médica. Da mesma forma, a Internet, através de cada um de seus muitos recursos, possibilita esta saudável confusão de informações a todas áreas do conhecimento.
Como o avanço da medicina se sobrepõe à má primeira impressão causada por suas incertezas, é hora de enxergar a ocorrência de dúvidas como uma condição transitória e indispensável à consolidação das certezas.
As descobertas que se sucederam neste século destruíram certezas centenárias e implantaram em seu lugar dúvidas e mais dúvidas. Será que por isso estamos mais inseguros? Menos amparados pelo conhecimento?
Muitas de nossas certezas duram uns poucos anos, meses ou mesmo dias, sendo substituídas por outras tão efêmeras quanto as primeiras. Enfim, como escreveu Nietzsche, o homem é um eterno sucumbir. Só a renúncia às certezas abre espaço para o crescimento do saber.
Resta-nos trocar o certo pelo duvidoso e aprender a surfar sobre o conhecimento sem mergulharmos em suas ondas. Tomada a disposição adequada, a Rede está aí para isso: semear, alimentar e realimentar a dúvida.
Data de Publicação: 23/10/2001
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