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WideBiz

Gerenciamento Neanderthal na Época do Virtual
Eduardo Wyllie

A virada do século será apresentada à posteridade como a época do
nascimento do mundo virtual, e o início do milênio como o período de sua consolidação. As empresas, famílias e governos se lançam no novíssimo mundo sem entender direito o que esperar, como ocupar e quais os perigos e características próprias destes imensos espaços abertos. Mas com as novas tecnologias da informação, certos vícios gerenciais que preservamos desde a idade média se tornam absolutamente inadmissíveis.

Dentre estes, destacamos dois cuja malignidade pode inviabilizar totalmente a migração de empresas para o mundo de bits.

O primeiro vício apodrece os frutos do gerenciamento de pessoal. Muda-se os nomes de gerência de RH para "gerenciamento de pessoas", para "gerenciamento de talentos", quando na verdade o que interessa ao departamento é a produtividade dos recursos humanos da empresa.

É uma realidade incontestável, apesar de pouco romântica, que o maior motivo pelo qual a felicidade dos funcionários preocupa os executivos é a expectativa que têm de seus subordinados se tornarem mais produtiv os.Aliás, o fulcro desta alavanca sequer se chama felicidade... É apenas motivação.

Assumindo esta realidade inescapável, por quê controlamos freqüência quando o que nos importa é produção? Qual o significado de termos um funcionário que respeita horários rigorosamente se não soubermos o quanto ele produz? E na óptica inversa, o que importa se um funcionário produziu todo o volume esperado em quatro horas e levou cinco horas para voltar do almoço?

Os contratos de trabalho são firmados com base em jornadas de oito horas, mas o empregador espera produção. Porém, não explicita no contrato e sequer controla a produção individual. Quando um funcionário produz menos que o esperado, ele é demitido sem justa causa e sob alegações subjetivas, apesar de ter cumprido à risca sua parte legal. Afinal, ele trabalhou oito horas por dia...

O segundo vício também se relaciona aos desvios da preocupação com o que é produzido. Trata-se do controle do uso dos recursos e instrumentos de trabalho oferecidos pela empresa a seus funcionários.

Quando dotamos a empresa de certos instrumentos, como por exemplo uma rede de computadores com acesso à Internet, o natural é que esperássemos que fosse usado para melhorias na produção. Porém, mais e mais responsáveis por redes como estas têm se preocupado com o uso particular que os funcionários fazem da mesma.

Mais uma vez os objetivos são destorcidos. Ao invés dos responsáveis se empenharem em ensinar qual a utilidade da Internet e como os trabalhadores podem usá-la para facilitar suas tarefas profissionais, gastam horas de trabalho, compram programas de espionagem interna e direcionam todo seu potencial criativo para impedir que os usuários obtenham da Rede as únicas coisas que sabem obter, aquelas relacionadas a seus interesses pessoais.

Enquanto estiverem produzindo mais, não faz diferença se usam os recursos da empresa para satisfazer interesses próprios. Da próxima vez que souber que um funcionário anda usando a rede da empresa para trocar Emails com sua amante, verifique se está usando o mesmo recurso para buscar informações importantes para a firma. Se souber que um funcionário não está usando seu Email para nada, ensine-lhe a enviar mensagens para sua amante. Quem sabe assim aprenderá como a Rede pode tornar seu trabalho mais fácil.

Quando alguém é impedido de passar horas no chat em conversas frívolas ou na WWW vendo fotos eróticas de gosto duvidoso durante o expediente, talvez pegue o telefone e passe horas em conversas frívolas e se tranque no banheiro e passe horas olhando fotos de revistas masculinas. Mas isto não tem a menor importância. O importante é se ele está ou não produzindo conforme o esperado.

A questão fundamental não é que uso fazem da Internet, mas que uso deixam de fazer, o que deixam de aproveitar de seu imenso potencial.

As novas tecnologias podem confundir, mas com os instrumentos mais antigos já não cometemos os mesmos erros. Não tiramos uma calculadora eletrônica das mãos de quem a usa para conferir seu saldo bancário, não recolhemos o material de papelaria básica de quem escreve cartas particulares e nem mesmo retiramos cartões profissionais de quem os distribui pelas empresas de recursos humanos à busca de um novo emprego.

Todos estes são preços muito pequenos diante da verdadeira necessidade de mantermos a produtividade de quadros de pessoal compostos por gente, gente normal.

Data de Publicação: 31/10/2001


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