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Gerenciando Firmas Tipo E
Eduardo Wyllie

Nem só como passatempo a obra de J.R.R. Tolkien merece elogios.
Provavelmente, na época em que foi escrita, ninguém poderia imaginar o que
viria a ser uma organização tipo E, talvez por isso, ninguém tenha percebido
que O Senhor dos Anéis, não intencionalmente, apresenta seu vilão principal
como gerente exemplar de organizações tipo E, podendo a obra, portanto,
orientar os profissionais do mundo real.

As organizações tipo E, segundo Tapscott ( Plano de Ação para uma Economia
Digital - Makron Books), vêm suplantar organizações tipo M, que se
caracterizam por apresentar uma multiplicidade de unidades de negócios
(divisões) se reportando a uma autoridade central, que a tudo gerencia.

Organizações tipo E, ao contrário, baseiam-se no conceito de ecossistema,
em que a troca de informações dentro e fora da instituição desempenham o
papel central. Não admira que o novo conceito só tenha surgido após a
difusão da Internet...

Expandindo um pouco a visão que Tapscott tem de organização tipo E e
adequando-a a o que tenho divulgado como "novo conceito empresarial", que é
fundado principalmente numa visão mais ampla de mercados (produtor e
consumidor), observamos que o fulcro da alavanca se encontra na capacidade
de identificar/criar e gerenciar redes de parcerias.

Ponha um pouco de fermento desidratado numa lâmina de microscópio e verá
uma boa representação do que era a economia há uma década atrás: apenas
círculos separados; acrescente uma gota d'água sem tirar os olhos da lente e
verá o que ela é hoje, inúmeros círculos se sobrepondo e gerando mais e mais
círculos. Passemos então do termo "corporação", limitado ao capital
representado pelo controlador da organização central, e abracemos o termo
expandido de firma, que engloba um conjunto intrincado de corporações
(fornecedores, parceiros, prestadores de serviços) que atuarão segundo a
conveniência do idealizador da Firma tipo E.

Aprender a lidar com esta nova realidade empresarial, em que as
organizações são abertas a novos mercados e parcerias e que cogitam toda e
qualquer possibilidade antes de descartá-las, é o mesmo que buscar ser "O
Senhor dos Anéis".

Na estória de Tolkien, Sauron, um ser incorpóreo de intelecto superior,
ensina a elfos, anões e seres humanos a arte de forjar anéis de poder, que
consideraremos aqui como a representação de alianças (parcerias).
Entretanto, sem que eles saibam, Sauron detém o "Um Anel", que controla
todos os demais, e assim acumula todo o poder da "Terra Média" (local onde
se passa a estória).

Nesta primeira descrição do tema central da aventura, já identificamos
vários fatores em comum entre a fantasia e a realidade contemporânea: um
gerente de firma tipo E também não estará fisicamente presente junto aos
demais membros, pois só através da virtualidade ele poderá atuar em diversas
frentes, como exige o novo paradigma empresarial; assim como Sauron acenava
a diversas espécies de seres com a oportunidade de partilhar do poder dos
anéis, o gerente deverá ampliar por áreas e setores inusitados seu leque de
potenciais parceiros; o segredo do Um Anel, como forma de deter o poder
central, coletor do poder de todos os usuários dos demais anéis, também
existe no mundo real, pois o papel de controle da sucessão de parcerias
necessárias para ocupar todo um nicho ecológico de negócios caberá a um
único articulador, e todos estarão em suas mãos no que se referir à
exploração do nicho, mas de suas ópticas individuais, enxergarão apenas os
benefícios do uso de seus anéis de poder, ignorando o quanto se tornam
dependentes de uma malha para eles
invisível; por fim, a necessidade de um intelecto superior para criar e
portar o "Um Anel" é decorrente, no mundo real, da importância da
organização dominar uma diversidade de competências-chave para poder avaliar
e gerenciar todas as parcerias necessárias para ocupar e explorar
devidamente um nicho ecológico de negócios.

Ao nos aprofundarmos em detalhes nos livros que compõem a obra prima de
Tolkien, verificamos mais pontos em comum e surgem novos exemplos úteis.
Quem usa o "Um Anel", representação de controle do eixo central de uma rede
de parcerias, além de poder controlar os demais portadores de anéis,
torna-se invisível ao mundo externo e visível aos portadores de anéis de
poder. É o mesmo que dizer: o controlador das firmas tipo E não é notado por
quem negocia com ele, mas é visto por seus parceiros. Não seria o
ressurgimento da máxima: o segredo é a alma do negócio?

Um último detalhe que não podemos deixar escapar é a dificuldade de
apropriação do controle de uma firma tipo E por qualquer outro ente que não
seja seu idealizador, o que vem em decorrência da complexidade das
estratégias de criação/identificação e gerenciamento de nichos ecológicos,
muitas vezes estando o planejamento estratégico presente apenas na mente de
seu detentor, fazendo parte de sua personalidade. Na estória, aquele que
usar o "Um Anel" terá uma mínima chance de utilizar seu poder, pois se seu
intelecto não suplantar o de seu criador, Sauron, o Anel destruirá sua
personalidade, tornando-o para sempre invisível.

A leitura que fazemos disto é: quem não conseguir desvendar a lógica de
cada uma das combinações intrincadas que constituem e mantém o equilíbrio
ecológico de um nicho de negócios, tenderá a estagnar a firma, o que causará
sua decadência com o decorrer do tempo pela falta de capacidade de se
adaptar às mudanças de cada mercado.

Sugerimos, então, que ao invés de tomar firmas assim, se opte por criar
sua própria firma tipo E, ou por se transformar sua empresa tipo M em firma
tipo E, empregando-se o ritmo necessário para que o nicho ecológico cresça
de forma sustentada e para que o gerente possa aprender a controlar um
ecossistema cada vez mais intrincado.

Data de Publicação: 29/05/2003


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