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As impressões e a realidade
Alberto Centurião
- O que é a verdade?
Não foi por acaso que Jesus não respondeu à célebre pergunta de Pilatos. Conhecemos o mundo pelas impressões que temos dele. Não existe, portanto, “a verdade”, uma vez que cada indivíduo tem do mundo e dos acontecimentos uma impressão pessoal, única. Para cada situação, animal, pessoa, objeto, local ou acontecimento, existem tantas verdades, quantas são as impressões pessoais registradas.
“O que o olho não vê o coração não sente”, “mais vale um gosto do que um vintém”, “quem ama o feio, bonito lhe parece”... A sabedoria popular registra inúmeros ditos que confirmam essa constatação – inclusive a cruel máxima política de que “mais vale a versão do que o fato”.
Em uma mesma pessoa, o tempo faz mudar a impressão causada por um fato, pessoa ou situação. O que numa ocasião provocou lágrimas, mais tarde poderá provocar o riso e vice-versa. A reação pessoal diante de uma situação semelhante que se repete, também pode mudar em função de diversos fatores circunstanciais ou da própria personalidade, que muda com o tempo e a experiência de vida. O que costumamos chamar “maturidade” é o mais potente agente transformador de reações que desenvolvemos com o passar do tempo. E o que é maturidade? A definição varia conforme o grau de maturidade...
O que pode ser constatado por qualquer motorista em viagem de férias é que o mapa não é o território e sim uma representação dele, representação que pode ser mais ou menos (in)fiel, mas não passa de uma representação. A foto não é o fato. Assim como o retrato da moça não é a moça, o poema de amor não é o amor, o tratado de paz não é a paz, o plano de ação não é a realização das ações planejadas, o relatório não é o que aconteceu, o balanço não é o resultado financeiro. Não existem duas leituras iguais para o mesmo poema. A partir de um texto, cada leitor faz sua interpretação. Numa sala de cinema, cada espectador assiste um filme diferente.
A cena que num produz lágrimas, noutro pode provocar o riso. Eu tinha oito anos quando fui ao cinema, assistir “Em busca do ouro”, de Charles Chaplin. Enquanto a platéia do cinema estrebuchava de rir, eu me angustiava com a fome daqueles dois mineradores perdidos no Alaska, comendo as botinas cozidas - enrolando os cadarços como se fossem espaguete. Sentia as mãos molhadas de suor, de nervoso ante o iminente risco de eles despencarem no abismo gelado. Enquanto centenas de pessoas se divertiam com uma hilariante comédia, eu sofria com um mix de suspense e melodrama.
O mapa da ilha não é a ilha. Uma coisa é a onça pintada no mapa, outra coisa é a onça pintada na ilha. Nossas impressões não correspondem totalmente à “realidade”, seja lá o que essa palavra signifique.
O problema é que não conhecemos a ilha. Para nos aventurarmos nela, nosso guia é o mapa. Agimos e reagimos, nas situações de nossa vida, a partir da representação - gravada em nós - de nossas vivências anteriores. Se o nosso mapa for “confiável”, isto é, apresentar pequeno grau de distorção, teremos grande chance de acerto ao nos locomovermos pela “ilha”. Mas se as representações gravadas no mapa forem muito fantasiosas, frutos de observações erradas e deduções equivocadas, certamente cometeremos inúmeros equívocos - que acarretarão os mais diversos inconvenientes - talvez até colocando em risco a nossa segurança pessoal na “ilha”. Confundir a onça pintada na ilha com a onça pintada no mapa, ou vice-versa, pode ser um erro fatal.
Ao nos locomovermos, em todos os ambientes vivenciados por nós - em situações que demandam respostas racionais ou emocionais, ação imediata ou elaboração mental - teremos índices de acertos proporcionais ao grau de verossimilhança dos nossos mapas. Crenças fantasiosas, distorcidas por emoções intensas ou por uma perspectiva demasiado egoística e egocentrada, provavelmente nos induzirão a interpretações equivocadas, que serão causa de toda sorte de enganos e desenganos.
“Amadurecer” é “ajustar os mapas aos territórios”, afinando a percepção e corrigindo os registros gravados, de modo a obter uma base de dados compatível, que possibilite reações mais produtivas e producentes aos estímulos e desafios cotidianos. Até onde minha vista alcança hoje, “maturidade” é ter mapas internos confiáveis.
Data de Publicação: 10/09/2001
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