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Receita para um grande filme - II
Ione Prado* e Alberto Centurião

3. O Elenco

Pense num grande filme que você assistiu, um filme inesquecível. Provavelmente a impressão mais forte que você guardou na memória é a imagem dos atores. Agora imagine essa mesma história representada por outros atores. Tente escalar outros, entre os melhores que você conhece, para os principais papéis desse filme e verá como é difícil. Os atores são a cara do filme. E quando um ator ou atriz representa muito bem determinada personagem, temos dificuldade em imaginar outro rosto no lugar do seu. Imagine Casablanca com outra dupla que não seja Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Imagine Uma Linda Mulher sem Julia Roberts e Richard Gere. Hannibal com outra cara que não a de Anthony Hopkins. Personagens como Tarzan ou James Bond, que foram interpretadas por muitos atores, mostram como alguns pegam e outros não pegam no papel. E cada fã tem o seu Tarzan ou agente 007 predileto.

A escalação do elenco pode destruir ou salvar um filme. Ter a pessoa certa no lugar certo o intérprete adequado para cada papel - é fundamental. E numa boa história existe lugar para gente feia ou bonita, velha ou jovem, simpática ou antipática, rústica ou sofisticada que vai representar papel de pai ou mãe, amigo ou amante, vilão, mocinho ou amigo do mocinho. Experimente embaralhar o elenco de um filme para ver no que dá. Pegue Giant (Assim Caminha a Humanidade) e troque os papéis de Rock Hudson e James Dean pra ver o que o filme vai virar.

Assim, também numa empresa, cada pessoa tem o seu lugar. Aptidões pessoais determinarão o melhor papel, a função que cada um pode desempenhar melhor. Escolher as pessoas certas e depois atribuir a cada pessoa o lugar certo é uma das chaves para o sucesso de qualquer empreendimento, porque gente faz a diferença. Assim como Tarzan e James Bond passaram por muitos intérpretes, também numa empresa não existem pessoas insubstituíveis... mas sempre haverá alguns intérpretes tão bem ajustados ao seu papel, que todos terão dificuldade de imaginar outra pessoa no seu lugar.

E o elenco da sua vida, como vai? Sim, você é o protagonista, mas... e o elenco de apoio? Você soube escalar as pessoas certas para desempenharem os papéis mais importantes no filme da sua vida? Ou tem vilão no papel de amigo do mocinho, bom moço no papel de vilão, comediante em papel trágico e canastrão pra segurar personagem dramático? Conviver com as pessoas erradas ou ter as pessoas certas nos papéis inadequados vai bagunçar a sua vida. Quando trazemos alguém para o nosso convívio, estamos confiando a essa pessoa um papel importante no filme de nossa vida, portanto é bom ter certeza de que é o intérprete certo para o papel.

4. A Direção

Ninguém avança sozinho. Quando alguém avança, esse progresso é resultado do esforço de muitas pessoas. Um filme é realização coletiva, obra que demanda o esforço e participação de muitas pessoas. O diretor de um filme é o responsável pela unidade estética do filme. Cenógrafos, figurinistas, compositor, atores, iluminadores, cinegrafistas... todos contribuem criativamente para o filme. Se não houver uma mente coordenadora, orientando e direcionando todas essas contribuições, o filme vira uma salada completa. Imaginem um filme em que o cenógrafo quer fazer de um jeito, o figurinista de outro, o compositor faz uma música a seu gosto e cada ator representa como acha que deve, os iluminadores fazem experiências com novos efeitos de luz e o diretor de fotografia filma tudo pelos ângulos mais inesperados. É fácil imaginar que não daria certo. O papel do diretor em um filme é dizer a cada um em que direção deve exercitar sua criatividade, aproveitando melhor as possibilidades de cada um, dentro das especificações do roteiro e da sua concepção do filme.

Você já reparou como alguns atores vão maravilhosamente bem em um filme e depois são um desastre em outro? Geralmente a responsabilidade é do diretor, que soube explorar as possibilidades do ator num caso e o deixou entregue à própria sorte ou orientou errado no outro.

Como você já deve ter deduzido, as pessoas em função de liderança numa empresa exercem a função do diretor de um filme. E assim como em um grande filme existem diversos diretores-assistentes, também numa empresa existem diversos níveis de liderança, que precisam estar afinizados e afinados com a linha geral, determinada pela liderança principal que deve ser capaz de estimular, orientar e aproveitar o melhor do potencial de cada pessoa ou grupo de trabalho da empresa preservando a harmonia e a sinergia do conjunto.

Quem está dirigindo o filme da sua vida? Lembre-se que o diretor é quem determina a estética, o ritmo e o andamento da história. Para que o filme saia a seu gosto, quem será o melhor diretor? E ao assumir a direção, saiba tirar proveito das opiniões de todos os integrantes da equipe, enriquecendo o filme da sua vida com a contribuição criativa de todos à sua volta. Você é o diretor da sua vida, mas não vive sozinho. A nossa vida é vivida em conjunto com muitas pessoas. Por isso é importante valorizarmos o espírito de equipe, é preciso saber viver... e conviver.

5. A Montagem

Já se disse que em uma sala de montagem e edição, é possível salvar ou destruir um filme. Na sala de montagem é que são escolhidos os takes (tomadas de cena) que serão exibidos e os que serão descartados. Esse processo seletivo é determinante para a linguagem e o ritmo narrativo do filme. Um exemplo: Titanic, depois de exibido para um público-teste, voltou à sala de montagem e sofreu uma redução de mais de meia hora. Cenas inteiras foram eliminadas. O resultado todo mundo viu. Agora... imagine Titanic com mais meia hora de correria por aqueles corredores inundados!...

Para uma empresa, a montagem do filme está relacionada com o tratamento de imagem da empresa aquilo que transparece da empresa perante a opinião pública externa e interna. Em especial, merece destaque neste processo a rede testemunhal de clientes externos todas aquelas pessoas que entram em contato com a empresa (seus profissionais, produtos e serviços) e depois saem apregoando sua avaliação sobre a qualidade do atendimento recebido.

A montagem do filme de nossa vida está diretamente relacionada aos processos de memória seletiva. Por exemplo, quando rememoramos a história de um relacionamento interpessoal ou da nossa vivência em um emprego. O processo evocativo das cenas registradas em nossa memória é seletivo. Recordamos aquilo que serve ao que queremos provar (para nós mesmos) no momento. Se o relacionamento está desgastado e estamos em vias de desligamento, ao recordar o passado tenderemos a buscar na memória os piores momentos. A versão editada será uma coleção de situações desagradáveis, levando-nos à conclusão de que foram cinco anos de sofrimento . Mas não terão acontecido momentos felizes? Certamente sim, senão não teria durado tanto tempo, mas tais momentos foram omitidos na sala de montagem mental. Se, ao contrário, ao revocarmos a trajetória de um relacionamento pessoal ou profissional, tivermos o cuidado de selecionar os bons momentos, aquelas situações em que nos sentimos participantes e realizados, a versão editada produzirá em nós uma sensação de bem-estar e prazer, motivando-nos a continuar com redobrado entusiasmo.

6. O Lançamento

Não basta escrever, produzir, filmar e editar um filme maravilhoso para ele ser um sucesso. Pra isso, será necessário que o filme seja assistido (e amado) por milhões de pessoas em todo o mundo. Para que isso seja possível que o filme chegue a muitas pessoas será necessária a parceria com uma (ou várias) rede de distribuição e exibição. A produção do filme necessitará estabelecer alianças externas para assegurar o sucesso do filme.

Não basta ter um grande produto (ou serviço), é preciso criar condições para que os consumidores tenham acesso a ele. Distribuição, parcerias, alianças, rede de revenda, equipe de vendas pessoais ou por telefone, filiais e postos de atendimento, call center... são elementos importantíssimos para o sucesso de qualquer empresa. A formação de alianças externas é geradora de sinergia indispensável ao sucesso de uma empresa, realizado através do sucesso de seus produtos ou serviços.

A analogia com o filme da nossa vida é evidente. De nada adianta ser competente e permanecer isolado no seu canto. Vivemos em sociedade e para vencer precisamos estabelecer alianças, associando-nos a outras pessoas e organizações que tenham o poder de multiplicar nossos esforços. É claro que aliança é via de mão dupla. Para sermos apoiados, é preciso que o esforço seja compensador aos outros. Voltando ao caso do filme: Se o filme não agrada aos expectadores, a rede de exibição se desinteressará dele. Mas se o filme da nossa vida sinalizar um sucesso de bilheteria... todos os exibidores vão querer colocá-lo em sua programação.

Colocar o filme da nossa vida em cartaz é tarefa que exige muita determinação. Quem assistiu a “Rocky, Um Lutador” a história de um boxeador fracassado que tem a oportunidade de desafiar o campeão e decide ganhar a luta certamente recorda as duas seqüências do filme em que Rocky corre pelas ruas, buscando condicionamento físico para a luta. Na primeira corrida, logo no início do filme, ele está totalmente fora de forma e chega ao topo de uma grande escadaria andando de quatro. Na segunda, em fase final de seu condicionamento físico, Rocky faz o percurso ampliado e chega ao alto da escadaria cheio de vitalidade e entusiasmo. Vencer exige disciplina, garra e determinação. Outra lição que podemos aprender com Rocky é que, quando a oportunidade chega, precisamos estar preparados para agarrá-la com unhas e dentes.

Esteja sempre preparado... para o filme da sua vida!


* Consultora de RH, com experiência na implantação e desenvolvimento de programas de treinamento.

Data de Publicação: 27/04/2001


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