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Caindo e Levantando
Alberto Centurião
Não existe campeão de automobilismo que nunca tenha sofrido um acidente. Ninguém anda de bicicleta sem ter levado um tombo. Não há motoqueiro que nunca tenha tomado uma ralada. Não há ninguém que saiba andar nem o mais fantástico campeão de maratona que nunca tenha tropeçado nas próprias pernas.
Toda pessoa bem-sucedida, em qualquer atividade, já passou pelo fracasso, da mesma forma que toda pessoa bem-amada já sofreu rejeição.
Enfrentar, sofrer o fracasso, é da própria condição humana. É lei da vida, que - ao contrário do que muita gente pensa - não tem alguns favoritos, uns poucos eleitos privilegiados a quem tudo é dado de bandeja. Ao contrário do que se diz, o que divide a humanidade em dois grupos, o dos bem-sucedidos e o dos vis mortais, não é que uns foram expostos ao fracasso e outros não. O divisor de águas é o instante que sucede à queda.
Quando uma criança cai, pode se levantar e continuar tentando andar, ou pode se estorcegar no chão, à espera da mamãe pressurosa para beijar-lhe os joelhos. Alguém, que poderia ser um grande ciclista, desiste porque não gosta dos hematomas. Traumatizado por um acidente, um piloto de automóveis pode nunca mais ser tão veloz. Quem gosta de andar de motocicleta acredita que a sensação de liberdade compensa o risco de algumas fraturas.
A diferença está no instante seguinte, no momento que sucede à queda. Aí, o indivíduo faz a sua escolha. Levanta-se, pronto para tentar novamente, ou se entrega à lamentação e, pior, olha em volta para ver se encontra algum culpado.
O tombo ensina mais sobre o andar do que horas de caminhada. Quando uma criança cai, recebe uma lição sobre equilíbrio, sobre seus próprios limites, sobre a importância da visão periférica na hora de mudar os passos, sobre o comprimento e a força das pernas e a localização do centro de gravidade do seu corpo.
Da mesma forma, aprendemos mais com o fracasso do que com o sucesso. Quando tudo sai certo, isso nos ensina pouco. Sabemos que tudo funcionou e ponto final. Podemos refazer a receita, se tivermos prestado atenção a todos os detalhes. Mas a tentativa de refazer tudo igual muitas vezes não funciona, porque os fatores externos mudam ou porque ignoramos algum detalhe que julgamos insignificante.
Já uma experiência fracassada nos convida a revisar passo por passo a operação toda, verificando erros e acertos e permitindo que, numa próxima vez, os acertos sejam repetidos e os erros, eliminados. Excluídas as raríssimas ocasiões em que o aprendiz de caçador mira na pomba e acerta no elefante justamente quando, por engano, havia apanhado a espingarda de caçar elefantes, excluídas essas mirabolantes sincronicidades difíceis de repetir, todo sucesso é o produto final de uma linha de montagem que passa por sucessivos protótipos fracassados.
A vantagem é que, quando montamos e desmontamos muitas vezes o mecanismo, entendendo as causas de cada fracasso, estamos aptos a formular o sucesso muitas vezes seguidas.
A questão é: por que uns aprendem com o fracasso e outros não? Por que, depois do tombo, uma criança se descabela em pranto enquanto outra se levanta e tenta novamente? É verdade que, cedo ou tarde, todos (ou quase todos) aprendem a andar. Mas é inegável que alguns fazem isso bem melhor do que os outros.
Data de Publicação: 27/03/2001
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