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Calotes Seletivos
Alberto Centurião
Ano passado, uma empresa responsável pela coleta do lixo em muitas cidades, inclusive parte de São Paulo, encomendou-me uma peça de teatro sobre coleta seletiva e reciclagem, para ser apresentada em um grande evento destinado ao público estudantil, a se realizar nas cidades em que atua. O objetivo declarado do evento e da peça era estimular as pessoas a fazerem a triagem do lixo doméstico, dando destinação útil aos materiais recicláveis.
Pareceu-me estranho que aquela empresa fizesse campanha por um tipo de coleta que não realiza. Minha supresa foi ainda maior quando, em companhia do parceiro produtor do projeto, fui a uma reunião com os engenheiros especialistas em lixo e constatei que, na tal empresa do lixo, não se fazia coleta seletiva. Todo o lixo do escritório papéis, copinhos descartáveis, latinhas de refrigerante era misturado sem nenhum critério. Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço não é uma boa maneira de ensinar comentei na ocasião.
Não por acaso, o tal projeto nunca saiu do papel e meu trabalho nunca foi remunerado. Escrevi a peça e não vi a cor do dinheiro. O texto com o título de Quem tem medo do Lixo Papão? - está até hoje no cesto de recicláveis do meu HD.
Containers para coleta seletiva colocados nas praças, onde os ecologicamente corretos cuidadosamente depositam vidros, plásticos, metais e papel, e depois vem o caminhão do coleta e mistura tudo na mesma caçamba, junto com o lixo comum da vizinhança? Acontecia até um ano atrás em São Paulo, não sei se ainda acontece.
Assisti, pela TV, uma reportagem explicando que o gás das lâmpadas fluorescentes, se liberado na atmosfera, causa dano à camada de ozônio. A reportagem mostrava até uma empresa especializada na reciclagem de lâmpadas, em uma cidade do interior de São Paulo. Mas... e quem não mora naquela cidade, faz o quê? Você aí, sabe o que fazer com as suas lâmpadas fluorescentes queimadas? Eu não sei o que fazer com as minhas. E agora, com a síndrome do apagão, todas as lâmpadas da minha casa são fluorescentes. E da sua?
Móveis quebrados (madeira, metais, plásticos, vidro e fibras de algodâo) para descartar? Se estiverem em más condições, a ponto de não interessar para as instituições de caridade, o que você faz? Simplesmente joga naquele beco da rua de trás? Ou paga ao homem da carrocinha para levar? E você faz idéia do que ele fará com aquela sucata? Vender para reciclagem ou simplesmente jogar naquele beco da rua de trás? Na sua cidade não existe um sistema de coleta para reaproveitamento desses materiais? Na minha também não.
Geladeiras velhas, cheias de gás freon - que esburaca a camada de ozônio - o que fazer com elas?
Pilhas e baterias em geral, que envenenam a terra e os mananciais, você as descarta onde? As de celular agora são recolhidas compulsoriamente pelas empresas. Mas... e as outras? Onde enfiá-las?
Em contrapartida, a reciclagem de autopeças funciona a pleno vapor pelas robautos da vida. Conheço pessoas que tiveram seu toca-fitas furtado e foram imediatamente aos pontos de receptação para comprar um novo , provavelmente furtado, talvez o mesmo que fora levado do seu carro. Sem pensar que, ao fazê-lo, estão perpetuando o furto. Em São Paulo, estudantes assaltados vão recomprar seus tênis numa feirinha conhecida de todos. Se ninguém comprasse nada roubado, haveria menos roubo.
Tenho uma amiga que ficou com seu carro parado por três meses, até conseguir comprar uma peça de origem idônea - para consertar o motor. Demorou tanto porque ela se recusou a comprar uma de origem suspeita. E por causa disso foi chamada de boba, otária, ingênua, moralista e boboca pelos amigos, todos pessoas de bem. Amigos que já tiveram, quase todos, um carro roubado. E que pagam seguro mais caro por causa dos altos índices de furto, mas não se convencem de que essa economia dá prejuízo.
Comerciantes que abastecem suas prateleiras com mercadorias de origem desconhecida e preços i-na-cre-di-tá-veis , não imaginam que talvez estejam causando a morte de caminhoneiros assassinados.
Você, que reclama da corrupção em todos os setores da vida pública, nunca pagou propinas a ninguém?
Data de Publicação: 07/06/2001
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