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O amor na vida organizacional
Armando Correa de Siqueira Neto
Parece-nos, a princípio, uma questão delicada e até constrangedora, o amor, relacionado à vida organizacional. Se, durante tanto tempo tratar sobre questões particulares foi motivo de receio, o que dirá introduzir a temática amorosa nas organizações. Embora o amor seja parte inseparável do ser humano e condição valiosa para que se estabeleçam boas relações entre as pessoas, o homem tentou, com vigor, manter-se distante do que considerou imprudente nos momentos de sua vida profissional. Convencionou enfaticamente a necessária separação entre uma coisa e outra. Criou e manteve um abismo para assegurar as finalidades de seu propósito: frieza no trabalho, a fim de torná-lo mais produtivo e rentável. A ausência de amor equivaleria a resultados gloriosos. Porém, não percebendo a impossibilidade de tal objetivo, mergulhou, em contrapartida, com paixão e amor nos afazeres cotidianos. Ficou enamorado pelo que fazia e, portanto, amou de modo diferente, mas assim o fez.
Apesar da força exercida pelas culturas organizacionais e do direcionamento de suas cúpulas no sentido de manter os padrões tradicionais acerca das relações humanas internas, o tempo é inexorável quanto às mudanças e, inevitavelmente, chegou-se à época em que tudo sobre as sutilidades humanas precisa ser revisto. Inteligência emocional, gestão de talentos e potencial criativo, sensibilidade e intuição, planejamento participativo estratégico, rede de relações, estilos de motivação, aprendizagem e transformação permanentes, inteligência espiritual, qualidade de vida, ambientes e condições adequadas, presença familiar em eventos que vão além das festas de confraternização de fim-de-ano, envolvimento ético e pessoal na responsabilidade social, relações com o meio ambiente e o seu valor antiestressante em prol da boa auto-estima, entre outros, são o despontar de uma necessidade que ganha vulto e espaço dentro de ambientes anteriormente rígidos por suas políticas estreitas, forte !
relação de ordem e obediência, trabalho maquinal de poucas possibilidades criativas, ausência de participação e aceitação passiva dos acontecimentos que afetam sempre o conjunto organizacional.
Poucos anteviram tais mudanças, pois não se contava com tamanha transformação dos colaboradores, que se descobrem desejosos por entender as razões que os leva a se dedicar tanto nas melhores horas de sua vida, afetando, claramente, a qualidade de vida familiar, além da frustração causada em não realizar alguns sonhos particulares, tendo em vista a necessidade de defender o seu ganho e, portanto, utilizando o precioso tempo disponível. O conhecimento e a sua articulação transmutada em saber causam ainda maior reflexão quanto aos fatos da vida, tanto profissional quanto pessoal, ampliando o questionamento sobre os comos e porquês de algumas decisões que atingem as pessoas dentro das empresas. Aspectos sutis da vida psíquica se desenvolvem a passos largos e clamam por aplicabilidade prática no trabalho. Eis que se retoma, triunfalmente, a peça-chave da qual somos parte: o amor.
O amor que é capaz de alegrar-se e encontrar conforto diante das dificuldades e pressões organizacionais. O amor que envolve a relação líder-seguidor, proporcionando influência ao invés de imposição. O amor que crê na prática ética e no arrependimento. O amor que nos levanta da queda por força da nossa própria ignorância e das fraquezas humanas. O amor que une e estimula a parcimônia, evitando, ao máximo, a discórdia. O amor que permite a diversidade. O amor que abre os canais da comunicação e faz ouvir as linhas e entrelinhas de tantas questões que já foram massacradas pela grossa maneira de se evitar, pouco se desenvolvendo, a empatia. O amor que impulsiona a aprendizagem e prepara para as mudanças. O amor que se preocupa com as pessoas e os resultados. O amor que auxilia na abertura das portas das inteligências disponíveis. O amor que motiva e faz crescer a cada novo desafio. O amor que acolhe e respeita os dias difíceis que, inevitavelmente passaremos. O amor que transce!
nde a figura de machão que muitos empreendedores e colaboradores mantêm, fornecendo-lhes, no lugar, um semblante de cordialidade, muito bem-vinda em tempos tão áridos. O amor que respeita o semelhante e lhe deseja tantas coisas boas quanto lhe forem possíveis. O amor que ultrapassa o ego e alinha-se ao comunitário. O amor que permite errar e aperfeiçoar. O amor que entende o valor da humildade e da sua prática. O amor que traz amparo espiritual e equilíbrio num mundo de constante desequilíbrio. O amor que permite o exercício de se amar, condição natural e imprescindível à boa existência entre os seres humanos.
É sobre este tipo de amor que se ponderará brevemente. Além do exponencial desenvolvimento presente no homem e as suas decorrências evolutivas, encontra-se neste tipo de relacionamento organizacional, a chance de modificar alguns comportamentos sociais, elevando-se em qualidade a motivação de manter-se sadiamente no trabalho. Certamente, como já fora abordado inicialmente, não é tarefa fácil introduzir este assunto, tão pouco a sua prática. Contudo, como o amor faz parte da essência humana, o seu desabrochar pode acontecer em velocidades diferentes e estimuladoras e de formas variadas, visto cada um ser singular.
Não nos parece impossível desenvolver o amor na vida organizacional. Porém, conta-se com o amor daqueles que podem dar o primeiro passo, até tornar a sua prática um hábito. E, não obstante, alguém, lá adiante, ao olhar para trás, achará graça da forma pela qual as pessoas se relacionavam dentro das companhias. Talvez possamos dar o pontapé inicial nesta reforma dos relacionamentos e, portanto, causar mudança suficiente para que os nossos descendentes usufruam uma vida com maior amor. O amor na vida organizacional pode oferecer um estado de espírito mais acertado para se lidar com os inevitáveis obstáculos cotidianos.
Data de Publicação: 07/11/2005
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